Família Bahia Vianna

História dos Bahia Vianna, de Pedro Leopoldo, MG


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Miloca

Maria Emília Gonçalves Bahia (Miloca) nasceu em 28 de Maio de 1889 em Maravilhas, Pitangui, MG. Era a filha mais nova de Cândido Gonçalves dos Reis e Anna Alvarenga Bahia, uma família numerosa, a segunda formada por Cândido, depois que ficou viúvo de Ana Rosa Rodrigues. A mãe, Don’Anna, era descendente do Sargento Mor Inácio da Cunha Alvarenga e de Maria Felisberta da Silva, a Maria Tangará, de quem se contam muitas lendas em Pitangui.

Miloca 1915

Miloca em 1915

 Uma infância rural

Miloca foi criada na Fazenda da Cachoeira de Cima, em Maravilhas. Em uma visita realizada no início dos anos 70, parte da fazenda ainda resistia ao tempo. Uma escada na frente dava para a varanda, onde um primo de Miloca apreciava um cigarro de palha. A ala esquerda estava em ruínas, mas na ala da direita ainda se podia visitar o oratório da família. Na parte de trás do casarão se encontravam as ruínas do engenho de cana, e ainda havia enormes tachos utilizados para fazer melado e rapadura. No riacho que corria nos fundos, a latrina ficava em uma casinhola de madeira, como nos tempos em que Miloca esteve por lá. À direita da casa, numa elevação, havia mangueiras centenárias. Os tempos passados na fazenda deixaram saudades, e Miloca comentou isto algumas vezes em seu caderno de modinhas.

Do casamento de seu pai com Anna Alvarenga Bahia, Miloca teve pelo menos oito irmãos, que ficaram com o sobrenome Gonçalves Bahia: Manoel (Nelinho), Elisa (Sinhá), Joaquim (Sô Quim), Cândido (Candinho), Francisco (Chiquinho), Joviniano (Jove), Leopoldo e José Josias (Jusa). Havia outros três meio-irmãos, filhos do primeiro casamento de Cândido, que tinham o sobrenome Gonçalves dos Reis: Benvindo, Antônio (Sô Nico) e Joaquim.

Miloca não viveu o tempo da escravidão, mas ouvia de sua mãe e dos irmãos mais velhos histórias de como sua mãe fazia viagens ao Rio de Janeiro, adornando de jóias as escravas que a acompanhavam, como demonstração de sua riqueza. Iam a cavalo até a cidade onde ficava a estação de trem, e de lá para o Rio. Durante esses passeios, os filhos recém-nascidos eram entregues a amas de leite. Algumas vezes, quando retornava, Don’Anna recebia a notícia de que um filho havia morrido. Não há registro das causas, mas pode-se imaginar que a falta de cuidados básicos de higiene e picadas de animais peçonhentos estivessem dentre elas. Naquele tempo, não havia antibióticos, e uma simples desinteria ou uma pneumonia eram letais para uma criança com o sistema imunológico em formação.

A mudança para Pedro Leopoldo

Os filhos mais velhos de Don’Anna tinham quase vinte anos a mais que Miloca, de forma que sua irmã Elisa Gonçalves Bahia se casou quando Miloca era ainda muito criança. O casamento de Elisa e a morte do pai, Cândido, em 1895, causaram uma grande mudança na vida dos Gonçalves Bahia.

Viúva, Don’Anna deixou Maravilhas e se mudou para a emergente vila de Pedro Leopoldo, onde Elisa foi residir com seu marido, Ottoni Alves Ferreira da Silva, filho de Antônio Alves Ferreira da Silva que, por sua vez, fundou a Companhia Fabril Cachoeira Grande. Em 1897, a capital do Estado de Minas Gerais foi transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte, mais um fator para acelerar o progresso na outrora pacata freguesia de Santa Luzia.

Ottoni e Elisa

Ottoni, Elisa e filhos

Juventude e Poesia

Na cidade, Miloca alcançou a adolescência, e, depois de ter recusado seu primeiro noivo, colecionou pretendentes que lhe faziam serenatas e lhe ofereciam versos. Gostava de cantar e aprendeu a tocar violão. Lembrava-se com saudades dessa época e mesmo depois de ter perdido a afinação da voz ainda recitava os poemas das modinhas para os netos que parassem para ouvi-la.

Uma modinha deve ter recebido especial atenção da moça, por ter seu nome no título: Perdão Emília, que foi criada no ano do seu nascimento. Em um caderno onde Miloca transcreveu diversas modinhas, uma folha solta continha a cópia feita por seu sobrinho, Christiano Ottoni Gonçalves Ferreira, em 1912, quando estava em Ouro Preto.

Modinha

Perdão Emília

 

Perdão Emília

Jose Henrique da Silva e Juca Pedaço

Já tudo dorme, vem a noite em meio.
A turva lua vai surgindo além.
Tudo é silêncio, só se vê nas campas
piar o mocho no cruel desdém.

Depois, um vulto de roupagem preta,
No cemitério com vagar entrou.
Junto ao sepulcro, se curvando a meio,
Com tristes frases nesta voz falou:

Refrão:
Perdão, Emília, se roubei-te a vida,
Se fui impuro, fui cruel, ousado...
Perdão, Emília, se manchei teus lábios.
Perdão, Emília, para um desgraçado.

Monstro tirano, pra que vens agora
Lembrar-me as mágoas que por ti passei?
Lá nesse mundo em que vivi chorando,
Desde o instante em que te vi e amei.

Chegou a hora de tomar vingança,
Mas tu, ingrato, não terás perdão...
Deus não perdoa as tuas culpas todas,
Castigo justo tu terás, então.

Roubaste as flores da capela virgem...
Cedi ao crime que perdão não tinha,
Mas tu manchaste minha vida honesta
Depois zombaste da fraqueza minha.

Ai quantas vezes aos meus pés curvado
Davas-me prova do teu puro amor.
Quando eu julgava que tu fosses anjo,
Não via fundo neste olhar traidor.

Mas eis que um corpo resvalando a terra
Tombou, de chofre, sobre a pedra fria.
E quando a aurora despontou, na lousa
Um corpo inerte a dormitar se via.

(repete o refrão)

Formando uma nova família

Em 8 de Maio de 1915, Miloca se casou com Mário da Conceição Vianna (veja o Post O Casamento). Desta união nasceram nove crianças, sendo que o primeiro, Francisco (Chiquinho), faleceu antes de nascer o segundo filho, Rivadávia (Riva), em 1917 e o sexto, Cândido (Candinho), nascido em 1925, faleceu com menos de três anos de idade. Miloca contava que um dia seu filho Geraldo fez uma travessura e subiu na mesa. Candinho, nervoso, correu para avisar a mãe: “Mamãe! Neném subiu na mesa!” Enquanto a mãe acudia o filho mais novo, Candinho passou mal e faleceu. Devia ter um problema no coração ou um aneurisma que o susto trouxe à tona. Os filhos que chegaram à idade adulta foram, nesta ordem: Rivadávia (Riva), Mário (Mariozinho), Caio, Raymundo (Mundinho), Geraldo, Elísio e Maria Mária.

A criação dos filhos nos primeiros anos do casamento deve ter dado muito trabalho a Miloca, sempre com um filho no colo e outro agarrado à barra da saia. Don’Anna ajudava a cuidar dos netos, e a irmã Elisa muitas vezes mandava para Miloca uma cesta cheia de quitandas. Don’Anna também cedeu ao casal um terreno onde eles construíram sua casa. Pelos endereços declarados nas certidões de nascimento dos filhos, podemos traçar a trajetória da família: Em 1915, o casamento de Miloca foi realizado na casa da mãe, à Rua Ferreira e Mello (renomeada mais tarde para Antônio Alves). Em 1919, quando nasceu Mariozinho, moravam na mesma rua. Provavelmente, Miloca passou os primeiros anos do seu casamento na casa da mãe, ou em alguma casa próxima. Em 1924, quando nasceu Mundinho, haviam se mudado para a Rua Dr. Neiva, onde nasceram todos os filhos mais novos. Este deve ser o lugar do terreno cedido pela mãe. Por volta de 1926, Miloca perdeu a mãe. No casamento da filha mais nova, Maria Mária, em 1948, Miloca já estava de volta à Rua Antônio Alves próximo à esquina com a Rua Dr. Herbster, onde Don’Anna teve uma chácara (Esta mudança deve ter ocorrido bem antes, conforme o tópico seguinte). Foi feita uma reforma na casa, dividindo-a ao meio para que Mária tivesse seu próprio espaço. Miloca contava que o quintal da casa ia até o Ribeirão da Mata, e que parte do terreno foi cedida para o Clube Social de Pedro Leopoldo.

Casa de Miloca

Casa de Miloca na Rua Antônio Alves

Tristeza

Em 1932, Miloca teve problemas de saúde, e solicitou duas licenças, a segunda com metade dos vencimentos (DOU 1932-04-23 p.32 e 1932-08-24 p.23). Em 1934, sofreu uma cirurgia de urgência. Consta que foi um problema no intestino. Deste episódio, recuperamos um telegrama avisando do problema à Caixa de Pensões da E.F.C.B.

miloca_telegrama

Telegrama informando cirurgia de Miloca

“Telegramma de Serviço a Transmitir

De Pedro Leopoldo para D. Pedro II e Sete Lagoas
Expedidor JV10; Destinatário Presidente Caixa Pensões e Médico Posto
… 10 de 10 de 1934
Esposa escrevente Mário da Conceição Vianna gravemente enferma soffrerá intervensão sirurgica inadiável. Não pode viajar. (a) D. Ferreira
Confere Em 1-11-1934
José Lourenço Pereira
P.Q.V.2ª”

Em 1935, Miloca trabalhava nos Correios. O quarto da frente de sua casa recebeu uma porta para o alpendre, e funcionava como Agência dos Correios em Pedro Leopoldo. A cidade era pacata, e o movimento era pequeno. Trabalhando em casa, podia cuidar dos filhos mais novos e acompanhar as tarefas domésticas. As horas passadas no trabalho eram horas de solidão. Miloca passava o tempo copiando em um caderno modinhas de sua juventude. Assinava e datava cada uma, e abaixo dos versos fazia comentários sobre a própria vida. Com os filhos estudando em internatos, a casa estava vazia, e a mãe saudosa se queixava disso.

Miloca Saudades

Comentário de Miloca, com saudades dos filhos

“Pedro Leopoldo 4 de Outubro de 1935

Manhã Chuvosa. Não sei se passarei bem hoje, espero em Deus que sim.
Estou com muitas saudades de meus filhos, Riva e Mariozinho.
Miloca”

miloca_tristeza

Miloca triste nos Correios

“Peço a Deus para me dar vida tranquilla.

Pedro Leopoldo, 9 de Outubro de 1935
Na minha casinha, em frente ao Club Recreativo, eu tenho o correio, o qual me faz passar dias bem tristonhos. Hontem foi um delles.”

Em Novembro de 1942, faleceu Mário. O episódio foi relatado no Post Mário da C. Vianna. Viúva, Miloca deixou de receber seu salário de Dezembro e mais tarde fez um requerimento para reavê-lo.

Miloca pede pagamento

Miloca solicita pagamento de seus vencimentos.

“Exmo. Sr. Diretor Regional dos Correios e Telégrafos de Minas Gerais

Maria Emília Bahia Vianna, agente auxiliar IV lotada nessa Regional, tendo por motivos independentes de sua vontade deixado de receber os seus vencimentos relativos ao mês de Dezembro último (1942), vem respeitosamente requerer o pagamento dos mesmos, de vez que a quantia a eles referente se acha depositada nessa D.R., levada a conta de Restos a Pagar de 1942.
P. deferimento”

Êxodo

Com o falecimento de Mário, os filhos do casal se dispersaram em busca de seus próprios caminhos. Mundinho foi para Goiânia, Riva, Caio e Mariozinho para Barra do Piraí, sendo que depois Caio foi para Barra Mansa e Mário para Campos. Elísio e Geraldo ainda eram menores, e permaneceram por algum tempo em Pedro Leopoldo, indo depois trabalhar em Belo Horizonte. De lá, Geraldo foi para o Rio de Janeiro e Elísio perambulou por vários lugares, incluindo Matosinhos, Barra Mansa, São Paulo, Contagem e de volta a Pedro Leopoldo, até que se fixou em Niterói.

Carteira de Trabalho de Elísio

Folha da Carteira de Trabalho de Elísio, mostrando empregos em São Caetano do Sul e Contagem

Riva e Mário se casaram pouco depois de sair de casa. A partir de 1944, começaram a nascer os netos. Logo depois que Riva se casou, a irmã, Mária, foi para a sua casa em Barra do Piraí para completar os estudos, mas ao voltar de férias para Pedro Leopoldo iniciou um romance que a levou a se casar com Paulo Mello. Os últimos a se casar foram Elísio e Mundinho.

Casamento de Maria

Casamento de Mária, realizado em 1948

Lembranças da Vó Miloca

Passados os anos, vieram os netos. Cada filho lhe deu pelo menos dois. Os Bahia Vianna haviam se espalhado por várias cidades do Sudeste, e o tempo de reunir a família na casa da matriarca era o fim do ano, perto do Natal e Ano Novo. Este ritual se repetia todos os anos. Nem sempre vinham todos, mas a casa ficava sempre cheia nestas ocasiões. Sempre encontrávamos um presépio montado, com muitas estatuetas de cerâmica sobre um pano que imitava pedra, que só seria desmanchado no Dia de Reis, 6 de Janeiro.

Miloca e netos

Miloca e seus netos

Sendo eu um dos netos mais novos, minhas lembranças da Vó Miloca são de uma senhora risonha sentada em sua cadeira de balanço com longos e fartos cabelos brancos, usando óculos com grau muito forte, que tornavam seus olhos enormes. Ao lado da cadeira ficavam as muletas que a sustentavam depois de ter quebrado o fêmur, em meados dos anos 50. Quando não estava na cadeira de balanço, ficava apreciando o movimento da rua no alpendre ao lado da casa. Todos os vendedores ambulantes que batiam à porta acabavam lhe vendendo alguma coisa, mesmo desnecessária. Da mesma forma, todos que vinham pedir esmola eram atendidos. Quando os filhos reclamavam, Miloca respondia: “E se o pedinte for Jesus Cristo disfarçado?”

Miloca 1979

Miloca em 1979

Com tantos netos, Miloca não se lembrava do nome de todos, e me chamava de ‘Como Chama?’. A sua dispensa estava sempre cheia de quitandas nos aguardando. Em uma cristaleira da sala ficava uma lata de biscoitos com uma amostra, que ela oferecia às visitas. Em alguns dias de sorte, a velha senhora tirava do chaveiro que ficava preso à sua cintura a chave da dispensa e dizia “Ô! Como Chama? Tome aqui a chave da dispensa e vá pegar umas quitandas para você. Quando terminar, feche bem fechado e me traga a chave de volta.” Desconfiada, nunca deixava a dispensa nem a cristaleira abertas.

Quando as noras pediam, Miloca lhes ditava as receitas dos doces que fazia, mas as tentativas de reproduzir quecas e outras delícias nunca chegavam nem perto. Certa vez, minha mãe resolveu acompanhar de perto a preparação de um doce, com a receita na mão. Miloca seguiu a receita de início, misturando os ingredientes e batendo a massa. Mas então achou que a massa estava muito macia e acrescentou um punhado de farinha, sem medida, mais um pouco e provou, acrescentando mais açúcar. De outra vez, acrescentou um ovo. Estava revelado o segredo de Miloca – as receitas precisavam de calibragem. A triste conclusão era de que não seria possível obter o mesmo resultado sem a ajuda de Miloca.

Queca de Miloca

Receitas de Miloca

Os mantimentos vinham do Armazém do Zé Pedro, onde as compras eram anotadas em uma caderneta, e pagas no fim do mês. Quando se comprava carne de porco, a pele e o toucinho vinham juntos. Da pele se faziam deliciosos torresmos e a banha era guardada em latas onde ficava a carne depois de cozida. No dia de servir, os pedaços de carne eram fritos na própria banha, e ficavam muito bons. Tudo que é gostoso leva açúcar, manteiga ou gordura animal. O arroz era amarelo bem forte, colorido e aromatizado com urucum. Uma tradição que depois foi seguida pelo meu pai foi o preparo de licores de pequi e de jenipapo. Lembro-me das bacias com as frutas cortadas, e as garrafas de cachaça que seriam usadas para fazer a infusão. Durante o preparo, o cheiro do jenipapo impregnava toda a casa.

Minha avó tinha sempre um sorriso nos lábios, e era um tanto irônica. Gostava de repetir um versinho do qual as noras não deviam gostar nem um pouco: “Os filhos da minha filha meus netos são. Os filhos dos meus filhos serão ou não.” Quando queria intrigar algum neto, propunha uma charada: “Leçon de Francais… Quandé curucundá?” Ao nos ver atônitos, sem resposta, abria um sorriso largo e respondia: “Setembro! Urucum dá em Setembro!” Outras vezes, recitava para nós alguma modinha antiga, ou quadrinhas de versos. Os netos mais velhos chegaram a ouvi-la tocar violão. Certa vez o instrumento me foi oferecido quando a avó soube que eu estava aprendendo, mas tinha cordas de aço e faltavam duas, que só eram vendidas em Belo Horizonte. Ficou para um outro dia.

Miloca gostava de carne de porco e outras comidas pesadas. Como já estava com idade avançada, sua filha, Mária, mandava fazer para o jantar comidas mais leves, com saladas de legumes. Miloca se levantava no meio da noite e assaltava a geladeira, comendo um belo pedaço de carne de porco. No outro dia, reclamava de indigestão, e dizia: “O que me fez mal foi aquela cenoura do jantar. Carne de porco não faz mal. Nada do que a gente gosta faz mal”. Outro hábito que conservou até bem tarde foi o tabagismo. Quando não estava conversando com alguma visita, ficava assistindo televisão e fumando seu cigarro. Vez por outra, pedia a um neto: “Si minino! Vai pr’a mim ali no buteco da esquina e compra um maço de Continental sem filtro. Toma aqui o dinheiro e pode comprar balas com o troco.” Na sala havia sempre muitas revistas de fotonovelas, que a anciã gostava de folhear.

Vaidosa, quando via anúncios de televisão sobre produtos para o cabelo, Miloca mandava alguém à farmácia para comprá-los. Depois, reclamava: “Estes anúncios de televisão são mentirosos! Comprei o produto e passei no cabelo, mas não ficou do jeito que eles mostraram naquela moça bonita do anúncio”. E para mostrar que já sabia disto antes de comprar o produto, dava um sorriso irônico. Outra vez, ouviu o reclame: “Regulador Xavier, para a saúde da mulher”. Quando comprou e foi ler as instruções, percebeu que o produto era para mulheres que ainda estavam em idade fértil e deu uma gargalhada.

Uma criatura esteve sempre associada com a casa de minha avó – o papagaio. Era bravo, e quando caía no chão só a dona conseguia pegá-lo, estendendo a muleta para o papagaio subir. No chão, enquanto Miloca não vinha, o papagaio era perseguido pelo Little, o cachorro pequinês da neta, Neném. De manhã, com fome, o papagaio gritava: “Miloca! O Miloca! Café pr’o lourinho” e imitava os latidos do cão. O papagaio aprendeu a cantar: “A Bahia não dá mais côco para fazer a tapioca. Deram um bom mingau para enganar os Cariocas. Papagaio louro, do bico dourado, tu que falavas tanto por que motivo estás calado!” Outra associação inevitável com as visitas a Pedro Leopoldo era o pomar, onde havia bananeiras ao fundo, umas três ou quatro mangueiras, uma pitangueira, um pé de fruta do conde, um grande abacateiro onde dormiam as galinhas do tio Paulo e, em especial, um pé de carambola, onde eu subia para me deliciar com as frutas maduras.

Miloca tinha duas sobrinhas, Nanci e Altiva (Tivinha), sendo Nanci sua afilhada. Altiva foi namorada do Riva. As duas permaneceram solteiras, e uma cuidava da outra. Riva sempre mandava para elas uma ajuda financeira. Elísio também colaborava quando ia a Pedro Leopoldo. As duas eram muito religiosas, e sempre rezavam muito por todos da família. Gostavam de preparar doces: ambrosia, quecas e doce de cidra. Quando nos recebiam de visita, não sabiam o que fazer para agradar.

Havia uma beata na cidade, chamada Sá Rogéria. Ela ralhava com Miloca por usar saias que deixavam ver as pernas. Sá Rogéria usava as suas até os pés. Miloca respondia que Sá Rogéria não mostrava as pernas porque eram feias. A beata, então, mostrava que suas pernas eram bonitas também.

No inverno de 1981, Miloca pegou uma pneumonia. Lúcia, esposa do Riva, veio para ajudar a Mária a cuidar da mãe. Depois, vieram as noras Laura e Célia. A doença se agravou e foi necessário levar Miloca para o hospital. O filho, Mundinho, veio de Goiânia e se revezava com Mária e Laura no acompanhamento da enferma. Quando estava com disposição melhor, Miloca lembrava de várias passagens de sua vida, relembrando seu passado. Na casa, o cãozinho sentia a falta da companheira, e ficava deitado embaixo da cadeira de balanço vazia. A doença se agravou e Miloca não resistiu. Com ela, adormeceu parte da vida dos filhos e netos. Minhas viagens a Pedro Leopoldo rarearam, e posso contar nos dedos as vezes em que voltei.

João A. M. Bahia Vianna

Julho/2014

Referências

[1] – MOREIRA, Maria Laura – Relatos gravados em arquivos MP3
[2] – VIANNA, João A. M. Bahia – Memórias de conversas com seu pai e seus tios

 

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