Família Bahia Vianna

História dos Bahia Vianna, de Pedro Leopoldo, MG


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Elísio Bahia Vianna

Elísio Bahia Vianna nasceu em Pedro Leopoldo em 3 de Maio de 1928. Era filho de Mário da Conceição Vianna e Maria Emília Bahia Vianna (em solteira, Gonçalves Bahia, e mais conhecida como Miloca). Seus avós participaram do desenvolvimento do local desde a fundação da fábrica de tecidos, onde Francisco de Paula da Fonseca Vianna – o avô paterno – foi diretor.

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Elísio Bahia Vianna

Infância

A vida de Elísio se iniciou pouco depois que Pedro Leopoldo foi elevada à categoria de cidade, em 1925. A estação de trem trouxe para a cidade armazéns atacadistas, que comercializavam as mercadorias vindas dos grandes centros. Produtos das propriedades rurais faziam o percurso inverso, deixando a cidade mais independente da antiga sede, Santa Luzia. Na família, a geração de Elísio foi a primeira a ter um infância urbana. O pai foi criado na Fazenda do Campinho, nas imediações do que se tornou a cidade de Pedro Leopoldo. Sua mãe nasceu na Fazenda da Cachoeira de Cima, em Maravilhas, pequeno lugarejo próximo de Pitangui.

Mário Vianna fez uma cópia da Certidão de Nascimento¹ de Elísio, como o fez para cada um dos seus filhos [2]. A família ainda residia na Rua Neiva, mas em poucos anos se mudaria para a Rua Antônio Alves, onde era a antiga chácara da avó Don’Anna, e onde Elísio viveu sua infância.

Certidão de Nascimento de Elísio - Folha 1

Certidão de Nascimento de Elísio – Folha 1

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Por ser um dos irmãos mais novos, Elísio foi vítima dos mais velhos. Convenciam-no a enterrar moedas para que se multiplicassem, e a provar que era HOMEM, assumindo as artes dos irmãos e levando o castigo sozinho. Quando os mais velhos alcançaram idade escolar, o menino reclamava com a mãe que também queria ir para a escola. Miloca falou com a professora, e ela, então disse que o menino poderia ir com os irmãos. Elísio foi para a escola, mas não ficou satisfeito, e voltou reclamando que os irmãos estavam aprendendo a ler, e ele não.

Na casa, com grande quintal ao fundo, que chegava até o ribeirão, cresciam mangueiras e outras árvores frutíferas. Havia bastante espaço para brincadeiras. Certa vez, os irmãos montaram um “circo de cavalinhos”. O ingresso cobrado era um palito de fósforo. Além das brincadeiras, Elísio gostava das pescarias que fazia com o irmão Mundinho. Como este tinha problemas de visão noturna, Elísio o guiava na volta, quando já começava a escurecer. Para pagar o favor, Mundinho levava Elísio nas costas durante a ida.

Quando voltavam da escola, Elísio e os companheiros passavam pelo Ribeirão da Mata, e muitas vezes decidiam nadar no rio. Para não molhar as roupas, deixavam tudo pendurado nos galhos das árvores. Mas sempre tinha um mais maldoso, que saía da água antes, dava nós nas roupas dos companheiros e saia de fininho, deixando os outros em apuros. As travessuras eram muitas. Dentre elas, os meninos catavam vaga-lumes e os guardavam em caixinhas de fósforos, para soltá-los durante as seções de cinema.

Elísio (o terceiro na fila de cima) e a turma do ginásio

Elísio (o terceiro na fila de cima) e a turma do ginásio

Juventude

Em 1942, Mário faleceu. Elísio recebeu dispensa no internato para vir visitar a mãe e não mais retornou. Sem ter completado o Ginásio, enfrentou mais tarde muitos desafios na sua carreira profissional. Começou a trabalhar ainda jovem, e perdeu parte dos dedos em uma plaina, em uma fábrica de tamancos. A juventude em Pedro Leopoldo foi agitada, e Elísio se envolvia nas campanhas políticas, como cabo eleitoral. Quando as ações contra políticos da oposição passavam dos limites, o rapaz se valia de um tio delegado para livrá-lo da cadeia. Na explosão de uma bomba caseira, que ia soltar na varanda de um candidato, Elísio teve o tímpano perfurado, ficando surdo de um ouvido.

Elísio passou por muitos empregos que não requeriam especialização. Na Cooperativa Agro-Pecuária de Pedro Leopoldo, dentre outras coisas, ajudava a descarregar os latões de leite que chegavam das fazendas. Possuiu bicicletaria em Matozinhos, passou um tempo morando com o irmão Geraldo em Belo Horizonte, foi caixeiro viajante e trabalhou também no açougue do irmão, Caio, em Volta Redonda. Era boêmio e valentão, e por muitas vezes se envolveu em brigas por causa de mulheres em cabarés.

Elísio a passeio em Juiz de Fora

Elísio a passeio em Juiz de Fora

Elísio era fascinado pelos automóveis e motocicletas, grandes novidades na cidadezinha onde vivia e, habilidoso, havia aprendido noções de mecânica. Com o fim da Segunda Grande Guerra, o Brasil passou por uma fase de industrialização intensa. Minas Gerais contribuía com a produção siderúrgica e a indústria de cimento. As fábricas da região Sudeste ofereciam muitas oportunidades de emprego. A partir de 1948, com vinte anos de idade, Elísio passou a ter sua carteira de trabalho, se empregando na indústria como mecânico. Pelos registros em sua carteira profissional, trabalhou na Cooperativa Agro-Pecuária de Pedro Leopoldo, montando sistemas de refrigeração, de 1948 a 1950; trabalhou como mecânico na Fidelidade, em São Paulo, em reprensagem de algodão; trabalhou montando formas para tijolos refratários na Magnesita, em Contagem; e na Cia. de Cimento Portland Cauê, com o cargo de ajustador, em 1953. Nestes empregos, seu salário variava entre sete e nove Cruzeiros por hora, ou, quando mensal, em torno de novecentos Cruzeiros. O emprego na Cauê já mostrava alguma estabilidade. Nele, Elísio ficou até 1956, e recebeu aumentos de salário, chegando a ganhar doze Cruzeiros por hora.

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Carteira de Trabalho de Elísio, mostrando empregos em Pedro Leopoldo

 

Bancário

Em 1956, Rivadávia, irmão mais velho de Elísio, já tinha carreira consolidada como bancário. Vendo que o irmão ainda não encontrara um emprego sólido, Riva conseguiu que Elísio fizesse uma entrevista de admissão ao Banco do Brasil, que estava abrindo uma agência em São Gonçalo. Após um teste simples, o rapaz foi contratado como contínuo. Como a agência de São Gonçalo ainda não estava instalada, Elísio passou a trabalhar na agência de Niterói. A data de admissão foi de 11 de Fevereiro de 1956.

A carreira de bancário era o que faltava para a vida de Elísio. No Banco do Brasil, encontrou a estabilidade para se estabelecer e formar família, abandonando de vez os tempos de boemia e aventuras. O salário inicial, de dois mil e quinhentos cruzeiros, já representava um bom aumento com relação aos empregos anteriores, e trabalhando com dedicação, logo vieram as promoções. Em Novembro de 1959, Elísio já estava na categoria de Contínuo D, com salário de onze mil e novecentos reais. Ao considerar os valores de salário, há que descontar a inflação do período, que estava na casa dos 20% ao ano no início da década e acelerou para 30% no final do governo de Juscelino Kubitschek. Mesmo assim, houve ganhos reais e, em mais dois anos se completaria o primeiro quinqüênio, que traria ganhos adicionais.

A Agência do Banco do Brasil onde Elísio trabalhava ficava na Rua São Pedro, n.60. No caminho da pensão onde dormia até o trabalho, Elísio notou uma professora que sempre passava a caminho do ponto de ônibus no mesmo horário. Da troca de cumprimentos passaram a rápidas conversas, e a professora, que se chamava Maria Laura, lhe emprestou uns livros, pois o rapaz estava se preparando para um concurso interno no banco, em busca de uma promoção. Elísio se mudou de pensão e o ponto de ônibus também, passando para perto da Praça do Rinque. Como a pensão ficava bem próxima, ele se ofereceu para guardar o lugar da moça no ponto de ônibus. O lugar era marcado com um tijolo, e assim Laura podia chegar um pouco mais tarde. Era também a desculpa para se encontrar com ela no caminho e dizer que lugar tinha reservado: “Hoje o seu lugar é o quinto tijolo”. Em pouco tempo, começaram a namorar. Elísio não foi aprovado no primeiro concurso, e Laura passou a ajudar com exercícios de Matemática e mais livros. Casaram-se em Fevereiro de 1959. Foram padrinhos o irmão de Elísio, Geraldo Bahia, e a irmã de Laura, Maria Helena. Também participaram o padrinho de Laura, Zeca Salles, e sua filha, Gilma [1].

Casamento de Elísio e Laura em 1959 Maria Helena, Geraldo, Elísio, Laura, José Salles e Gilma

Casamento de Elísio e Laura em 1959
Maria Helena, Geraldo, Elísio, Laura, José Salles e Gilma

Pai de Família

Do casamento com Laura, nasceram João em 1959 e Cristina (Tininha) em 1960. Quando a menina nasceu, João Moreira, sogro de Elísio, chegou com uma chave e deu a Laura. A chave era de uma casa que tinha comprado para o casal no Fonseca, na Rua Abraão da Costa Saião nº 75. João Moreira pagou a entrada e Elísio e Laura foram pagando as prestações até quitarem o imóvel.

Rua Abraão da Costa Saião

Casa na Rua Abraão da Costa Saião, Fonseca, Niterói, RJ

O primeiro automóvel que Elísio comprou depois de casado foi um Ford 1939 verde. Sempre que iam para a casa de Cecília, vindo do Fonseca, o carro enguiçava em frente à estação do trem, próximo ao Moinho Fluminense. Laura, então, tomava um ônibus com as crianças, e Elísio ficava consertando o carro. Este mesmo carro também enguiçava quando Elísio ia levar Laura ao trabalho. As amigas já sabiam, e sempre que Laura chegava atrasada perguntavam se pegou carona com o marido.

Elísio tinha curiosidade por todo tipo de máquina, e os aparelhos eletrônicos não eram exceção. Certa vez, pegou um rádio emprestado com seu irmão, Rivadávia. Quando devolveu o aparelho, Rivadávia percebeu que o rádio não funcionava mais. Então, perguntou ao irmão: “O que você fez com o rádio Elísio?” A resposta: “Eu abri o rádio, e encontrei uns parafusos frouxos. Então, resolvi apertar”. Os ‘parafusos’ eram para regular os delicados filtros de sintonia do rádio, um super-heteródino. Riva teve que chamar um técnico para regular o aparelho novamente.

Quando Fernando, irmão de Laura, se casou, em 1965, João Moreira repetiu o que fez com cada um dos filhos, e o ajudou a comprar uma casa no Centro de Niterói. Era um sobrado na rua Senador Nabuco 45, esquina com Marquês de Olinda. João propôs que Fernando Moreira ficasse com a parte de cima e Elísio com a parte de baixo. João Moreira ajudou com a entrada de Fernando, e os dois pagariam as prestações fixas até quitar a compra, quando, então, assinariam a escritura definitiva. Elísio morava no Fonseca e resolveu vender o carro, o mesmo Ford 1939, para pagar a entrada da nova casa. Quando se mudaram, o motorista do caminhão não quis levar o tampo de vidro da mesa da sala, pois havia o risco de quebrá-lo. O tampo era muito grande e pesado e Elísio chamou Fernando para ajudá-lo. Os dois vieram a pé desde o Fonseca até o Centro (cerca de três quilômetros) trazendo o tampo. A cada trecho do percurso, paravam em um bar e tomavam uma pinga. Foi quase um milagre o tampo da mesa ter chegado inteiro.

Casa na Rua Senador Nabuco, Centro, Niterói, RJ

Casa na Rua Senador Nabuco, Centro, Niterói, RJ

Elísio trouxe para Niterói sua Mineirice. Era calado, gostava de pescar, de tomar uma pinga e de acordar cedo. Usava uma bicicleta para trabalhar, que era também o meio de transporte para fazer compras. Quando os filhos já podiam acompanhá-lo, instalou uma cadeirinha no guidão da bicicleta. Se precisava levar as duas crianças, uma ia sentada no bagageiro. Costumava fazer compras na Rua da Praia, no Centro de Niterói, e deixava a bicicleta trancada em frente ao mercado. Um dia, ao voltar com as compras, não encontrou a bicicleta. Olhou em volta e não conseguiu descobrir quem a teria levado. No dia seguinte, saiu dizendo que ia buscar a bicicleta. João Moreira estava na casa do genro, e duvidou que Elísio fosse capaz de recuperar o que fora roubado no dia anterior. Perto do local do furto, havia um ponto de ônibus para uma linha que ia para São Gonçalo. Elísio imaginou que o ladrão estivesse na fila, e, vendo a oportunidade, furtara a bicicleta e fora com ela para casa. Elísio entrou no ônibus e indagou ao motorista e ao trocador se lembravam de alguém que tivesse deixado de viajar na véspera, no horário do furto. Sem conseguir uma pista concreta, continuou no ônibus a caminho de São Gonçalo até que viu uma bicicleta igual à sua parada na calçada. Já estava pintada de outra cor, e sem a cadeirinha que usava para levar as crianças. Pediu ao motorista para parar e desceu do ônibus. Conversou com o dono da bicicleta, e contou sua história. O rapaz disse que tinha comprado a bicicleta na véspera, e levou Elísio ao vendedor. Lá, Elísio teve a confirmação de que a bicicleta fora adquirida na véspera, e encontrou a cadeirinha onde transportava as crianças. Ameaçando fazer queixa à polícia, Elísio conseguiu que a bicicleta lhe fosse devolvida. Já era bem tarde quando chegou em casa com a bicicleta, para surpresa de todos.

Da infância em Minas, Elísio trouxe um gosto por criar passarinhos. A área de serviço da casa tinha um corredor comprido, que era cheio de gaiolas com coleiros, canários e outros pássaros, mas o preferido era um curió chamado Bicudinho. Elísio tratava o pássaro com muitos mimos, e até o levava para o serviço. Um dia, o gerente da agência passou pela sala e viu a gaiola pendurada na parede. Perguntou aborrecido de quem era o passarinho, e os funcionários lhe disseram que era de Elísio. O gerente então sorriu: “Esse Bahia!!” No Banco, Elísio era conhecido pelo sobrenome.

Elísio no trabalho

Elísio no trabalho

 

Pescarias, Automóveis e Outras Aventuras

Morando tão perto do cunhado, Elísio fez grande amizade com Fernando Moreira. O passatempo preferido eram as pescarias. Pescavam na Praia das Flexas, e vinham para casa com uma fieira de peixes. A criançada da rua logo notou o hábito, e Elísio ganhou o apelido de “Seu Canhanha” (nome de um peixe muito comum naquela época). Da primeira vez que Elísio convidou os irmãos para uma reunião de família na casa da Senador Nabuco, Mário (ou Rivadávia) chegou à rua seguindo as orientações, mas não sabia ao certo o número da casa. Ao encontrar uns meninos brincando, perguntou sobre Elísio Bahia, um senhor alto, que tinha uma bicicleta. Os meninos não conheciam ninguém com este nome. Mais detalhes foram somados à descrição, até que foi dito que ele gostava de pescar, e que gostava de consertar carros. Então, um dos meninos exclamou: “Ah! É o seu João Canhanha, pai do Joãozinho! Ele mora ali”. É que a maioria dos meninos da rua tinha o mesmo nome do pai, e Elísio ficou também conhecido como “Seu João”.

Elísio estava sempre fazendo reparos na sua própria casa. Consertava as bicicletas, as paredes da casa e fazia alguma pintura de parede quando necessário. Quando Riva vinha visitar e notava algum reparo feito pelo irmão, brincava: “Isto é coisa do Elísio”. A brincadeira o deixava chateado, mas logo já estavam relembrando as aventuras passadas em Pedro Leopoldo. Raramente havia consenso sobre como algum fato havia acontecido, e levavam horas discutindo sobre o tema.

Mesmo quando estava visitando algum parente, ou quando passava férias com a família em Barra de São João, Elísio aproveitava para pescar. Ele e Fernando improvisavam o material da pesca, enrolando a linha em garrafas ou latas de óleo, e utilizando mariscos catados nas pedras como isca. Certa vez, apareceu um grande cardume na barra do Rio São João e lá foram os pescadores. Quase não era preciso usar iscas! Bastava lançar a linha ao mar e sair recolhendo, que vinha sempre um peixe no anzol. Perto deles estava um pescador com iscas de camarão e um belo molinete, que não estava conseguindo pescar nada. Quando viu os dois com a fieira improvisada com um ramo de árvore cheia de peixes, ficou aborrecido e foi-se embora. Nas visitas ao cunhado Paulo Moreira, em Conceição de Macabu, Elísio também era convidado para as pescarias de rio, e se admirava ao ver o Sr. Osório, sogro de Paulo, mergulhar e voltar com dois ou três cascudos na mão, catados nas locas da margem do rio.

O fascínio de Elísio pelos automóveis nunca arrefeceu. Sempre que podia, trocava de carro por um modelo mais novo, ou melhor. Foram muitos modelos: Ford 1939, Fiat Pulga, Austin, Gordini, Vemaguete, Vemag, Aero Willis, Opala, Rural Willis, VW Variant, Fusca, etc… Adquiridos já bem rodados, os carros da família davam problema nas viagens a Minas, quando iam visitar Miloca. Mal cruzavam a divisa dos estados, o carro enguiçava. Cada vez era um problema diferente, mas quase sempre exigia a parada em algum mecânico, e muita paciência. Certa vez, o carro ficou sem gasolina perto de Simão Pereira, e o posto local estava fechado. Perguntando pela cidade, Elísio descobriu que o prefeito era seu parente. O político ficou muito feliz em poder ajudar, e cedeu gasolina da prefeitura para que continuassem viagem até Juiz de Fora.

Quando vinham ao Rio, os parentes de Elísio passavam em Niterói para uma visita. Um destes era Sílvio de Milu, filho de Romero de Carvalho Filho (o Milu) e Francisca Gonçalves Ferreira (Chiquita, prima de Elísio). Em Niterói, Sílvio chamava o primo para sair: “Ilísio! Vamo pro Bipapão”. Iam ao Bicho Papão, restaurante de peixe em Jurujuba, onde bebiam todas. A farra levava vários dias, até que o dinheiro de Sílvio acabava, ou algum compromisso o levava de volta a Pedro Leopoldo. Quando Laura tomava conhecimento destas aventuras, reclamava com Sílvio, e ameaçava contar tudo para sua mulher, Eugeninha. Quando a esposa vinha junto, Sílvio se comportava, e convidavam Elísio e Laura para passear no Rio. Uma vez, Sílvio de Milu veio de Cabo Frio com os amigos. Estavam todos embriagados, e quem os recebeu foi Laura. Ela ligou para Elísio no trabalho e pediu ajuda, pois não tinha acomodação para todos. Ao chegar em casa, Elísio já tinha uma solução: Levou o primo e os amigos para o sítio de João Moreira no Rio do Ouro, um lugarejo próximo. Lá, mostrou a casa para todos, e disse que eles poderiam ficar à vontade e dormir, pois ele viria buscá-los depois do expediente. Mas ao entrarem na cozinha, havia um esqueleto estendido no chão, que Lúcia, irmã mais nova de Laura, tinha tratado com formol e deixou secando para seus estudos de medicina. Apavorados, os rapazes não quiseram ficar dentro da casa. Quando Elísio voltou, encontrou todos em um buteco próximo.

Um outro primo de Elísio era Zé Bahia, filho de Jusa, que por sua vez era irmão de Miloca. Zé Bahia era casado com Irene Ferraz, uma Paulista de descendência Portuguesa, com quem teve quatro filhos: Ilka, Raquel, Jussara e José Anselmo. Moravam em Sete Lagoas, e sempre que ia a Minas, Elísio ia visitá-lo. Quando chegava, o Zé dispensava os pacientes do consultório dentário que ainda não tinham sido atendidos e saía para passear pelas fazendas de Minas com o primo. Zé Bahia tinha uma Rural Willis verde. Num destes passeios, foram à Fazenda da Cachoeira de Cima em Maravilhas, onde Miloca passou a juventude. Outro lugar visitado foi o rancho de Zé Bahia às margens do Rio Vermelho. Era um casebre simples, e o Zé queria que Elísio e a família passassem a noite lá, mas ameaçava chover, e tiveram que sair antes do temporal, pois o carro de Elísio não era próprio para estradas de lama. Alguns anos mais tarde, o rio levou o rancho em um ano de muita chuva e enchentes.

Quando ia a Sete Lagoas visitar Zé Bahia, Elísio encomendava com antecedência um garrafão de cachaça da boa e um metro de fumo de rolo. O Zé sabia onde conseguir artigos de primeira, e guardava para Elísio a encomenda. A cachaça, tirada da “cabeça” (o início da destilação, onde o teor de álcool é maior), era fortíssima. Na volta para casa, já em Pedro Leopoldo, Elísio acrescentava à bagagem tripa de porco, pequi e jenipapo, para preparar linguiças e liquores em Niterói. Numa das viagens, o garrafão de cachaça se quebrou no porta-malas, e o cheiro da cachaça era de tontear os passageiros e motorista. Tiveram que parar na estrada mesmo e descer a bagagem toda para retirar o vidro quebrado e secar o porta-malas.

O gosto por mecânica de Elísio era partilhado por seu sobrinho, Mariozinho. Uma vez, Mariozinho apareceu em Niterói com um Jeep Willis do tipo usado durante a Segunda Guerra. Quando Elísio chegou em casa, o Jeep estava todo desmontado na calçada. Os dois devem ter se divertido bastante remontando o carro. E nestes casos, era comum sobrarem algumas peças no final. Mariozinho tinha um caminhão e sempre que passava por Niterói comprava uma torta na Leiteria Brasil e passava na casa de Elísio e Laura. Os filhos de Elísio adoravam a visita, com muitas histórias das aventuras pelo Brasil, e se deliciavam com a torta.

Sítios e Fazendas

Elísio também trouxe de Pedro Leopoldo um gosto pela vida rural, lembrança das fazendas dos tios e primos. Assim que as finanças permitiram, e por incentivo do irmão, Geraldo Bahia, Elísio comprou um sítio – uma posse – em Xerém, na Baixada Fluminense. A compra foi feita em Junho de 1973, e o preço foi de três mil Cruzeiros por sete hectares de terra. Lá, criava porcos e cultivava mandioca e banana. Para complementar a ração dos animais, fez um acordo com a cantina da agência bancária onde trabalhava, e às Sextas-Feiras recolhia as sobras de alimentos e levava para o sítio, para servir de lavagem. A acidez da lavagem chegou a corroer o piso de um Volkswagen TL a tal ponto que Elísio se desfez do carro com medo de que o banco do motorista caísse com o carro em movimento, atropelando o próprio dono. Geraldo Bahia tinha um sítio vizinho, onde chegou a ter um cavalo e uma vaca. Depois, passou a criar frangos de granja e porcos, em sociedade com Elísio. Quando os frangos chegaram ao peso de abate, os irmãos não conseguiram vender o produto, e resolveram usar as aves para consumo próprio. Toda semana, vinham para casa carregados de frangos.

Em 1975, através de um consórcio, Elísio comprou o primeiro carro zero: um VW Brasília. Na primeira noite, deixou o carro dormindo na rua em frente ao apartamento, como fazia com todos os seus carros até então. Mas o carro novo despertou a atenção de oportunistas, que arrombaram o porta-malas e levaram o pneu sobressalente e o macaco do carro. Desde então, Elísio acordava com qualquer barulho suspeito, e gritava da janela se via alguém próximo ao carro. Chegou a colocar atrás da cortina do quarto um poster do Roberto Carlos, que visto da rua à noite parecia alguém vigiando. Com o carro novo, a viagem anual a Pedro Leopoldo transcorreu sem problemas. Lá, porém, o filho João pegou o carro emprestado e amassou o pára-lama numa batida com um caminhão. O carro ficou uma semana na oficina antes de poderem viajar de volta a Niterói. O mesmo carro serviu para uma viagem mais longa, até a Bahia, façanha impensável com os carros anteriores. Foram férias longas, passando por Salvador, Porto Seguro, Ilhéus e Guarapari. De volta ao Estado do Rio de Janeiro, fizeram as visitas costumeiras ao irmão Mário, em Bom Jesus do Itabapoana, e aos cunhados Paulo, em Macabu, e Carlos, em Trajano de Moraes.

Elísio e Laura em Salvador, Bahia, em 1977

No inverno de 1981, Elísio perdeu a mãe, que já estava há algumas semanas doente. Laura já estava em Pedro Leopoldo ajudando a cuidar da sogra, mas Elísio tinha compromissos no trabalho, e só viajou para ver a mãe quando teve notícias de que a sua saúde estava piorando. Ao chegar, Miloca estava sendo velada na sala da casa.

Tendo sentido na pele as dificuldades causadas pela falta de estudo, Elísio dava muito valor à educação dos seus filhos. Sempre repetia que seu avô vendera uma fazenda para pagar a escola dos filhos. Laura também veio de uma família onde a educação era valorizada. João Moreira, um Português vindo para o Brasil por volta de 1915, também fez grande sacrifício para educar seus filhos. Assim fez o casal, e João e Cristina sempre estudaram em boas escolas em Niterói, e depois no Rio de Janeiro. O esforço frutificou e os dois alcançaram nível universitário. João se formou em Engenharia Eletrônica e Cristina em Psicologia. O interesse do rapaz por eletrônica veio por estímulo do próprio pai. Quando o filho tinha uns treze anos, Elísio iniciou um curso por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, de técnico em eletrônica. O sonho era montar um rádio, ou melhor ainda, um transmissor de rádio. Mas as apostilas chegavam e iam se acumulando, pois Elísio tinha pouco tempo para digerir o material. Quando começaram a chegar as peças para montar o rádio, Elísio pediu a ajuda de João para montar o aparelho. Com acesso às apostilas, o jovem ávido por informações acabou estudando eletrônica e montando o rádio para o pai.

irmaos_bahia_vianna_1983

Em 1983, Elísio ficou preocupado com sua remuneração futura. O cargo de contínuo havia sido extinto e lhe deram uma posição na portaria do Banco. Com a mudança, perdeu algumas gratificações que conquistara. Fez as contas e descobriu que era melhor se aposentar antes de perder as outras gratificações. Embora tivesse trabalhado desde os dezessete anos, havia poucas anotações na sua carteira de trabalho antes do emprego no Banco do Brasil, e seu tempo de contribuição era de pouco mais de 30 anos. Como era associado da Caixa de Previdência do Banco, sua aposentadoria foi complementada, e reajustada conforme os aumentos dos funcionários da ativa. Com isso, passou a ter uma vida tranquila e pode se dedicar a cuidar dos seus sítios e pescarias, e fazer excursões com Laura pelo Brasil. Uma ou duas vezes por ano, fazia uma viagem ao norte do Estado para visitar os irmãos, Mário em Campos, Geraldo em Cabo Frio, e os cunhados Paulo e Carlos, que também moravam no norte do Estado.

Em 1990, João, comprou uma fazendinha em Conceição de Macabu. O pai emprestou parte do dinheiro para o pagamento, que foi feito à vista. Foi sorte para Elísio. Logo no início do governo de Fernando Collor de Mello, sua equipe econômica criou um plano que confiscou os depósitos bancários e de poupanças, para devolvê-los muitos meses depois, corroídos pela inflação. João tinha um bom salário, e pagou de volta o empréstimo em pouco tempo. O dinheiro foi providencial, porque no mesmo ano se casava a filha, Cristina, e Elísio pode usar o dinheiro para pagar pela cerimônia. Quase sempre que o filho ia à fazenda Elísio ia junto, e por três anos foram muitas aventuras, em que relembrou os velhos tempos do Sítio de Xerém. Na fazendinha, além do gado para engorda, criaram porcos, patos, galinhas d’angola e de pescoço pelado. Cultivaram milho, feijão, mandioca e frutas cítricas, além de plantarem várias árvores frutíferas, das quais poucas vingaram, pois sempre algum boi ladrão pulava a cerca e se deliciava com as folhas tenras da mudinha recém-plantada. No açude ao fundo da propriedade, Elísio pescava traíras no fim da tarde. Sempre voltavam para Niterói com o porta-malas do carro cheio. Eram bananas, mandiocas, carás, … Numa das viagens, João estava sem carro, e foram no Fusca 67 de Elísio. Na estrada, o Fusca foi ultrapassado por um Ford Escort, bem mais novo. Elísio pisou no acelerador e estava elogiando o carro por conseguir acompanhar o outro quando o motor pifou. Conseguiram chegar com muito custo a uma oficina próxima, onde o mecânico constatou que um dos cilindros havia furado com o esforço. Removida a vela do cilindro furado, o carro ainda rodou uns oitenta quilômetros com apenas três cilindros funcionando e em velocidade reduzida até chegarem ao destino, onde a peça foi substituída.

João, Paulo, Laura e Elísio em Conceição de Macabu, 1993

João, Paulo, Laura e Elísio em Conceição de Macabu, 1993

Quando se tornou avô, em 1992, Elísio morava no Bairro de São Francisco e possuía um sítio no Rio do Ouro. Ia lá toda semana, mas também gostava de se reunir com os amigos em uma padaria perto de casa, em frente à praia. Quando saía de casa, dizia à neta que ia para o sítio, para não ter que levá-la junto, mas algumas vezes Laura saía com a neta e o encontravam na padaria. Certa vez, a menina pediu ao seu tio Amaro que comprasse para ela balas do tipo que havia no “Sítio do Vovô”. O tio lhe disse que o sítio era muito longe, e não poderia ir lá para comprar a bala. A menina então retrucou: “Não tio Amaro! O Sítio do Vovô é logo ali na praia” [1].

Elísio e a neta, Jéssica

Elísio e a neta, Jéssica

No “Sítio do Vovô” havia dois frequentadores ilustres: Manoel e Joaquim, dois cães de rua. Joaquim sempre acompanhava um morador de rua, e Manoel gostava muito de Elísio e de Chumbo, um motorista de ambuläncia muito amigo de Elísio. Os dois cães eram mimados por todos, e acabaram com problemas de coração e de hipertensão, de tanto comerem presunto no bar, já que recusavam qualquer outra comida. Em dia de vacinação de animais, cada um que se lembrava levava o Manoel ao posto de vacinação. A funcionária do posto perguntava: “Qual é o nome do cachorro, e o endereço?” Ao saber que este era o Manoel e o endereço era o da Padaria, a funcionária exclamava: “Mas este já veio aqui várias vezes!!” Manoel gostava de acompanhar o carro do Bahia. Corria atrás do veículo até se cansar e perder distância, e então voltava para a padaria. Um dia Manoel seguiu Chumbo pela ladeira que levava à sua casa e não resistiu – morreu de infarto no caminho.

Elísio e a família em Dezembro de 2005

Elísio e a família em Dezembro de 2005

Em um dia de Abril de 2006, como era de costume, Elísio foi para o Sítio do Rio do Ouro. A tarefa escolhida para aquele dia quente foi pintar o portão de entrada. No caminho de volta, Elísio passou mal e encostou o carro no Largo da Batalha. Havia sofrido um acidente vascular cerebral. Passou algum tempo dentro do carro quente até que alguém percebesse que havia algo errado e o socorresse. Foi levado para o posto de saúde local e a filha Cristina foi avisada, e veio socorrer o pai, mas muito tempo se passou até que Elísio fosse atendido. O dano foi grande, e Elísio perdeu os movimentos e a fala. Os rins, fígado e pulmão já comprometidos com os abusos da juventude impediram que o tratamento necessário fosse administrado, e ele não resistiu nem uma semana no hospital. Dos irmãos Bahia Vianna, tinha sido o penúltimo a nascer, e foi também o penúltimo a partir, deixando viva a irmã caçula, Maria Mária.

João Bahia Vianna

Agosto de 2014

Referências

[1] – MOREIRA, Maria Laura – Relatos gravados em arquivos MP3

[2] – VIANNA, Mário da Conceição – Anotações pessoais

[3] – VIANNA, João A. M. Bahia – Memórias de conversas com seu pai e seus tios

Notas

(1) – Certidão de Nascimento de Elísio
“Cópia do registro civil de meu filho Elísio Bahia Vianna.
Raymundo Gonçalves, Escrivão Interino de Paz e official do registro civil desta cidade de Pedro Leopoldo, Estado de Minas Geraes,
Certifico que revendo os meus livros de registro de nascimento de n.5 (folhas 179v) folhas cento e setenta e nove, verso, encontrei as seguintes declarações. N.59 – Elísio Bahia Vianna – Aos 5 – cinco dias do mês de Maio do anno de mil novecentos e vinte e oito (1928) em meu cartório, nesta cidade de Pedro Leopoldo, da Commarca de Santa Luzia, Estado de Minas Geraes, compareceu o Sr. Mário da Conceição Vianna, brasileiro, casado, empregado da Estrada de Ferro Central do Brasil, natural desta cidade, que conheço ser o próprio, e em presença das testemunhas abaixo assignadas declarou que no dia vinte (20) digo no dia treis (3) deste mês de Maio do corrente annom aos (20) vinte minutos do dia, em seu domicílio à Rua Neiva, nasceu uma criança de côr clara, do sexo masculino, e que logo lhe puseram o nome de Elísio, é o 6º filho legítimo delle declarante e sua mulher D. Maria Emília Bahia Vianna, esta natural de Maravilhas, do município de Pitangui, tendo a criança os seguintes avós: pelo lado paterno de Francisco de Paula Fonseca Vianna e D. Carolina Vianna, elle já fallecido e esta reside nesta cidade e pelo lado materno de Cândido Gonçalves dos Reis e D. Anna Gonçalves Bahia, ambos já fallecidos. Do que para constar faço este termo que vae assignado pelo declarante, pelas testemunhas e por mim José Teixeira Júnior, Escrivão interino que escrevi e assigno. José Teixeira Júnior, Mário da Conceição Vianna, Francisco Xavier, Lindolpho José Ferreira. É tudo que contém o dito registro e que copiei fielmente e dou fé. O escrivão interino de Paz. ass. Raymundo Gonçalves
Pedro Leopoldo, 3 de Julho de 1928 ass. Raymundo Gonçalves
Copiado em 5 de Julho de 1928. Mário C. Vianna”

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