Família Bahia Vianna

História dos Bahia Vianna, de Pedro Leopoldo, MG


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Elísio Bahia Vianna

Elísio Bahia Vianna nasceu em Pedro Leopoldo em 3 de Maio de 1928. Era filho de Mário da Conceição Vianna e Maria Emília Bahia Vianna (em solteira, Gonçalves Bahia, e mais conhecida como Miloca). Seus avós participaram do desenvolvimento do local desde a fundação da fábrica de tecidos, onde Francisco de Paula da Fonseca Vianna – o avô paterno – foi diretor.

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Elísio Bahia Vianna

Infância

A vida de Elísio se iniciou pouco depois que Pedro Leopoldo foi elevada à categoria de cidade, em 1925. A estação de trem trouxe para a cidade armazéns atacadistas, que comercializavam as mercadorias vindas dos grandes centros. Produtos das propriedades rurais faziam o percurso inverso, deixando a cidade mais independente da antiga sede, Santa Luzia. Na família, a geração de Elísio foi a primeira a ter um infância urbana. O pai foi criado na Fazenda do Campinho, nas imediações do que se tornou a cidade de Pedro Leopoldo. Sua mãe nasceu na Fazenda da Cachoeira de Cima, em Maravilhas, pequeno lugarejo próximo de Pitangui.

Mário Vianna fez uma cópia da Certidão de Nascimento¹ de Elísio, como o fez para cada um dos seus filhos [2]. A família ainda residia na Rua Neiva, mas em poucos anos se mudaria para a Rua Antônio Alves, onde era a antiga chácara da avó Don’Anna, e onde Elísio viveu sua infância.

Certidão de Nascimento de Elísio - Folha 1

Certidão de Nascimento de Elísio – Folha 1

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Por ser um dos irmãos mais novos, Elísio foi vítima dos mais velhos. Convenciam-no a enterrar moedas para que se multiplicassem, e a provar que era HOMEM, assumindo as artes dos irmãos e levando o castigo sozinho. Quando os mais velhos alcançaram idade escolar, o menino reclamava com a mãe que também queria ir para a escola. Miloca falou com a professora, e ela, então disse que o menino poderia ir com os irmãos. Elísio foi para a escola, mas não ficou satisfeito, e voltou reclamando que os irmãos estavam aprendendo a ler, e ele não.

Na casa, com grande quintal ao fundo, que chegava até o ribeirão, cresciam mangueiras e outras árvores frutíferas. Havia bastante espaço para brincadeiras. Certa vez, os irmãos montaram um “circo de cavalinhos”. O ingresso cobrado era um palito de fósforo. Além das brincadeiras, Elísio gostava das pescarias que fazia com o irmão Mundinho. Como este tinha problemas de visão noturna, Elísio o guiava na volta, quando já começava a escurecer. Para pagar o favor, Mundinho levava Elísio nas costas durante a ida.

Quando voltavam da escola, Elísio e os companheiros passavam pelo Ribeirão da Mata, e muitas vezes decidiam nadar no rio. Para não molhar as roupas, deixavam tudo pendurado nos galhos das árvores. Mas sempre tinha um mais maldoso, que saía da água antes, dava nós nas roupas dos companheiros e saia de fininho, deixando os outros em apuros. As travessuras eram muitas. Dentre elas, os meninos catavam vaga-lumes e os guardavam em caixinhas de fósforos, para soltá-los durante as seções de cinema.

Elísio (o terceiro na fila de cima) e a turma do ginásio

Elísio (o terceiro na fila de cima) e a turma do ginásio

Juventude

Em 1942, Mário faleceu. Elísio recebeu dispensa no internato para vir visitar a mãe e não mais retornou. Sem ter completado o Ginásio, enfrentou mais tarde muitos desafios na sua carreira profissional. Começou a trabalhar ainda jovem, e perdeu parte dos dedos em uma plaina, em uma fábrica de tamancos. A juventude em Pedro Leopoldo foi agitada, e Elísio se envolvia nas campanhas políticas, como cabo eleitoral. Quando as ações contra políticos da oposição passavam dos limites, o rapaz se valia de um tio delegado para livrá-lo da cadeia. Na explosão de uma bomba caseira, que ia soltar na varanda de um candidato, Elísio teve o tímpano perfurado, ficando surdo de um ouvido.

Elísio passou por muitos empregos que não requeriam especialização. Na Cooperativa Agro-Pecuária de Pedro Leopoldo, dentre outras coisas, ajudava a descarregar os latões de leite que chegavam das fazendas. Possuiu bicicletaria em Matozinhos, passou um tempo morando com o irmão Geraldo em Belo Horizonte, foi caixeiro viajante e trabalhou também no açougue do irmão, Caio, em Volta Redonda. Era boêmio e valentão, e por muitas vezes se envolveu em brigas por causa de mulheres em cabarés.

Elísio a passeio em Juiz de Fora

Elísio a passeio em Juiz de Fora

Elísio era fascinado pelos automóveis e motocicletas, grandes novidades na cidadezinha onde vivia e, habilidoso, havia aprendido noções de mecânica. Com o fim da Segunda Grande Guerra, o Brasil passou por uma fase de industrialização intensa. Minas Gerais contribuía com a produção siderúrgica e a indústria de cimento. As fábricas da região Sudeste ofereciam muitas oportunidades de emprego. A partir de 1948, com vinte anos de idade, Elísio passou a ter sua carteira de trabalho, se empregando na indústria como mecânico. Pelos registros em sua carteira profissional, trabalhou na Cooperativa Agro-Pecuária de Pedro Leopoldo, montando sistemas de refrigeração, de 1948 a 1950; trabalhou como mecânico na Fidelidade, em São Paulo, em reprensagem de algodão; trabalhou montando formas para tijolos refratários na Magnesita, em Contagem; e na Cia. de Cimento Portland Cauê, com o cargo de ajustador, em 1953. Nestes empregos, seu salário variava entre sete e nove Cruzeiros por hora, ou, quando mensal, em torno de novecentos Cruzeiros. O emprego na Cauê já mostrava alguma estabilidade. Nele, Elísio ficou até 1956, e recebeu aumentos de salário, chegando a ganhar doze Cruzeiros por hora.

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Carteira de Trabalho de Elísio, mostrando empregos em Pedro Leopoldo

 

Bancário

Em 1956, Rivadávia, irmão mais velho de Elísio, já tinha carreira consolidada como bancário. Vendo que o irmão ainda não encontrara um emprego sólido, Riva conseguiu que Elísio fizesse uma entrevista de admissão ao Banco do Brasil, que estava abrindo uma agência em São Gonçalo. Após um teste simples, o rapaz foi contratado como contínuo. Como a agência de São Gonçalo ainda não estava instalada, Elísio passou a trabalhar na agência de Niterói. A data de admissão foi de 11 de Fevereiro de 1956.

A carreira de bancário era o que faltava para a vida de Elísio. No Banco do Brasil, encontrou a estabilidade para se estabelecer e formar família, abandonando de vez os tempos de boemia e aventuras. O salário inicial, de dois mil e quinhentos cruzeiros, já representava um bom aumento com relação aos empregos anteriores, e trabalhando com dedicação, logo vieram as promoções. Em Novembro de 1959, Elísio já estava na categoria de Contínuo D, com salário de onze mil e novecentos reais. Ao considerar os valores de salário, há que descontar a inflação do período, que estava na casa dos 20% ao ano no início da década e acelerou para 30% no final do governo de Juscelino Kubitschek. Mesmo assim, houve ganhos reais e, em mais dois anos se completaria o primeiro quinqüênio, que traria ganhos adicionais.

A Agência do Banco do Brasil onde Elísio trabalhava ficava na Rua São Pedro, n.60. No caminho da pensão onde dormia até o trabalho, Elísio notou uma professora que sempre passava a caminho do ponto de ônibus no mesmo horário. Da troca de cumprimentos passaram a rápidas conversas, e a professora, que se chamava Maria Laura, lhe emprestou uns livros, pois o rapaz estava se preparando para um concurso interno no banco, em busca de uma promoção. Elísio se mudou de pensão e o ponto de ônibus também, passando para perto da Praça do Rinque. Como a pensão ficava bem próxima, ele se ofereceu para guardar o lugar da moça no ponto de ônibus. O lugar era marcado com um tijolo, e assim Laura podia chegar um pouco mais tarde. Era também a desculpa para se encontrar com ela no caminho e dizer que lugar tinha reservado: “Hoje o seu lugar é o quinto tijolo”. Em pouco tempo, começaram a namorar. Elísio não foi aprovado no primeiro concurso, e Laura passou a ajudar com exercícios de Matemática e mais livros. Casaram-se em Fevereiro de 1959. Foram padrinhos o irmão de Elísio, Geraldo Bahia, e a irmã de Laura, Maria Helena. Também participaram o padrinho de Laura, Zeca Salles, e sua filha, Gilma [1].

Casamento de Elísio e Laura em 1959 Maria Helena, Geraldo, Elísio, Laura, José Salles e Gilma

Casamento de Elísio e Laura em 1959
Maria Helena, Geraldo, Elísio, Laura, José Salles e Gilma

Pai de Família

Do casamento com Laura, nasceram João em 1959 e Cristina (Tininha) em 1960. Quando a menina nasceu, João Moreira, sogro de Elísio, chegou com uma chave e deu a Laura. A chave era de uma casa que tinha comprado para o casal no Fonseca, na Rua Abraão da Costa Saião nº 75. João Moreira pagou a entrada e Elísio e Laura foram pagando as prestações até quitarem o imóvel.

Rua Abraão da Costa Saião

Casa na Rua Abraão da Costa Saião, Fonseca, Niterói, RJ

O primeiro automóvel que Elísio comprou depois de casado foi um Ford 1939 verde. Sempre que iam para a casa de Cecília, vindo do Fonseca, o carro enguiçava em frente à estação do trem, próximo ao Moinho Fluminense. Laura, então, tomava um ônibus com as crianças, e Elísio ficava consertando o carro. Este mesmo carro também enguiçava quando Elísio ia levar Laura ao trabalho. As amigas já sabiam, e sempre que Laura chegava atrasada perguntavam se pegou carona com o marido.

Elísio tinha curiosidade por todo tipo de máquina, e os aparelhos eletrônicos não eram exceção. Certa vez, pegou um rádio emprestado com seu irmão, Rivadávia. Quando devolveu o aparelho, Rivadávia percebeu que o rádio não funcionava mais. Então, perguntou ao irmão: “O que você fez com o rádio Elísio?” A resposta: “Eu abri o rádio, e encontrei uns parafusos frouxos. Então, resolvi apertar”. Os ‘parafusos’ eram para regular os delicados filtros de sintonia do rádio, um super-heteródino. Riva teve que chamar um técnico para regular o aparelho novamente.

Quando Fernando, irmão de Laura, se casou, em 1965, João Moreira repetiu o que fez com cada um dos filhos, e o ajudou a comprar uma casa no Centro de Niterói. Era um sobrado na rua Senador Nabuco 45, esquina com Marquês de Olinda. João propôs que Fernando Moreira ficasse com a parte de cima e Elísio com a parte de baixo. João Moreira ajudou com a entrada de Fernando, e os dois pagariam as prestações fixas até quitar a compra, quando, então, assinariam a escritura definitiva. Elísio morava no Fonseca e resolveu vender o carro, o mesmo Ford 1939, para pagar a entrada da nova casa. Quando se mudaram, o motorista do caminhão não quis levar o tampo de vidro da mesa da sala, pois havia o risco de quebrá-lo. O tampo era muito grande e pesado e Elísio chamou Fernando para ajudá-lo. Os dois vieram a pé desde o Fonseca até o Centro (cerca de três quilômetros) trazendo o tampo. A cada trecho do percurso, paravam em um bar e tomavam uma pinga. Foi quase um milagre o tampo da mesa ter chegado inteiro.

Casa na Rua Senador Nabuco, Centro, Niterói, RJ

Casa na Rua Senador Nabuco, Centro, Niterói, RJ

Elísio trouxe para Niterói sua Mineirice. Era calado, gostava de pescar, de tomar uma pinga e de acordar cedo. Usava uma bicicleta para trabalhar, que era também o meio de transporte para fazer compras. Quando os filhos já podiam acompanhá-lo, instalou uma cadeirinha no guidão da bicicleta. Se precisava levar as duas crianças, uma ia sentada no bagageiro. Costumava fazer compras na Rua da Praia, no Centro de Niterói, e deixava a bicicleta trancada em frente ao mercado. Um dia, ao voltar com as compras, não encontrou a bicicleta. Olhou em volta e não conseguiu descobrir quem a teria levado. No dia seguinte, saiu dizendo que ia buscar a bicicleta. João Moreira estava na casa do genro, e duvidou que Elísio fosse capaz de recuperar o que fora roubado no dia anterior. Perto do local do furto, havia um ponto de ônibus para uma linha que ia para São Gonçalo. Elísio imaginou que o ladrão estivesse na fila, e, vendo a oportunidade, furtara a bicicleta e fora com ela para casa. Elísio entrou no ônibus e indagou ao motorista e ao trocador se lembravam de alguém que tivesse deixado de viajar na véspera, no horário do furto. Sem conseguir uma pista concreta, continuou no ônibus a caminho de São Gonçalo até que viu uma bicicleta igual à sua parada na calçada. Já estava pintada de outra cor, e sem a cadeirinha que usava para levar as crianças. Pediu ao motorista para parar e desceu do ônibus. Conversou com o dono da bicicleta, e contou sua história. O rapaz disse que tinha comprado a bicicleta na véspera, e levou Elísio ao vendedor. Lá, Elísio teve a confirmação de que a bicicleta fora adquirida na véspera, e encontrou a cadeirinha onde transportava as crianças. Ameaçando fazer queixa à polícia, Elísio conseguiu que a bicicleta lhe fosse devolvida. Já era bem tarde quando chegou em casa com a bicicleta, para surpresa de todos.

Da infância em Minas, Elísio trouxe um gosto por criar passarinhos. A área de serviço da casa tinha um corredor comprido, que era cheio de gaiolas com coleiros, canários e outros pássaros, mas o preferido era um curió chamado Bicudinho. Elísio tratava o pássaro com muitos mimos, e até o levava para o serviço. Um dia, o gerente da agência passou pela sala e viu a gaiola pendurada na parede. Perguntou aborrecido de quem era o passarinho, e os funcionários lhe disseram que era de Elísio. O gerente então sorriu: “Esse Bahia!!” No Banco, Elísio era conhecido pelo sobrenome.

Elísio no trabalho

Elísio no trabalho

 

Pescarias, Automóveis e Outras Aventuras

Morando tão perto do cunhado, Elísio fez grande amizade com Fernando Moreira. O passatempo preferido eram as pescarias. Pescavam na Praia das Flexas, e vinham para casa com uma fieira de peixes. A criançada da rua logo notou o hábito, e Elísio ganhou o apelido de “Seu Canhanha” (nome de um peixe muito comum naquela época). Da primeira vez que Elísio convidou os irmãos para uma reunião de família na casa da Senador Nabuco, Mário (ou Rivadávia) chegou à rua seguindo as orientações, mas não sabia ao certo o número da casa. Ao encontrar uns meninos brincando, perguntou sobre Elísio Bahia, um senhor alto, que tinha uma bicicleta. Os meninos não conheciam ninguém com este nome. Mais detalhes foram somados à descrição, até que foi dito que ele gostava de pescar, e que gostava de consertar carros. Então, um dos meninos exclamou: “Ah! É o seu João Canhanha, pai do Joãozinho! Ele mora ali”. É que a maioria dos meninos da rua tinha o mesmo nome do pai, e Elísio ficou também conhecido como “Seu João”.

Elísio estava sempre fazendo reparos na sua própria casa. Consertava as bicicletas, as paredes da casa e fazia alguma pintura de parede quando necessário. Quando Riva vinha visitar e notava algum reparo feito pelo irmão, brincava: “Isto é coisa do Elísio”. A brincadeira o deixava chateado, mas logo já estavam relembrando as aventuras passadas em Pedro Leopoldo. Raramente havia consenso sobre como algum fato havia acontecido, e levavam horas discutindo sobre o tema.

Mesmo quando estava visitando algum parente, ou quando passava férias com a família em Barra de São João, Elísio aproveitava para pescar. Ele e Fernando improvisavam o material da pesca, enrolando a linha em garrafas ou latas de óleo, e utilizando mariscos catados nas pedras como isca. Certa vez, apareceu um grande cardume na barra do Rio São João e lá foram os pescadores. Quase não era preciso usar iscas! Bastava lançar a linha ao mar e sair recolhendo, que vinha sempre um peixe no anzol. Perto deles estava um pescador com iscas de camarão e um belo molinete, que não estava conseguindo pescar nada. Quando viu os dois com a fieira improvisada com um ramo de árvore cheia de peixes, ficou aborrecido e foi-se embora. Nas visitas ao cunhado Paulo Moreira, em Conceição de Macabu, Elísio também era convidado para as pescarias de rio, e se admirava ao ver o Sr. Osório, sogro de Paulo, mergulhar e voltar com dois ou três cascudos na mão, catados nas locas da margem do rio.

O fascínio de Elísio pelos automóveis nunca arrefeceu. Sempre que podia, trocava de carro por um modelo mais novo, ou melhor. Foram muitos modelos: Ford 1939, Fiat Pulga, Austin, Gordini, Vemaguete, Vemag, Aero Willis, Opala, Rural Willis, VW Variant, Fusca, etc… Adquiridos já bem rodados, os carros da família davam problema nas viagens a Minas, quando iam visitar Miloca. Mal cruzavam a divisa dos estados, o carro enguiçava. Cada vez era um problema diferente, mas quase sempre exigia a parada em algum mecânico, e muita paciência. Certa vez, o carro ficou sem gasolina perto de Simão Pereira, e o posto local estava fechado. Perguntando pela cidade, Elísio descobriu que o prefeito era seu parente. O político ficou muito feliz em poder ajudar, e cedeu gasolina da prefeitura para que continuassem viagem até Juiz de Fora.

Quando vinham ao Rio, os parentes de Elísio passavam em Niterói para uma visita. Um destes era Sílvio de Milu, filho de Romero de Carvalho Filho (o Milu) e Francisca Gonçalves Ferreira (Chiquita, prima de Elísio). Em Niterói, Sílvio chamava o primo para sair: “Ilísio! Vamo pro Bipapão”. Iam ao Bicho Papão, restaurante de peixe em Jurujuba, onde bebiam todas. A farra levava vários dias, até que o dinheiro de Sílvio acabava, ou algum compromisso o levava de volta a Pedro Leopoldo. Quando Laura tomava conhecimento destas aventuras, reclamava com Sílvio, e ameaçava contar tudo para sua mulher, Eugeninha. Quando a esposa vinha junto, Sílvio se comportava, e convidavam Elísio e Laura para passear no Rio. Uma vez, Sílvio de Milu veio de Cabo Frio com os amigos. Estavam todos embriagados, e quem os recebeu foi Laura. Ela ligou para Elísio no trabalho e pediu ajuda, pois não tinha acomodação para todos. Ao chegar em casa, Elísio já tinha uma solução: Levou o primo e os amigos para o sítio de João Moreira no Rio do Ouro, um lugarejo próximo. Lá, mostrou a casa para todos, e disse que eles poderiam ficar à vontade e dormir, pois ele viria buscá-los depois do expediente. Mas ao entrarem na cozinha, havia um esqueleto estendido no chão, que Lúcia, irmã mais nova de Laura, tinha tratado com formol e deixou secando para seus estudos de medicina. Apavorados, os rapazes não quiseram ficar dentro da casa. Quando Elísio voltou, encontrou todos em um buteco próximo.

Um outro primo de Elísio era Zé Bahia, filho de Jusa, que por sua vez era irmão de Miloca. Zé Bahia era casado com Irene Ferraz, uma Paulista de descendência Portuguesa, com quem teve quatro filhos: Ilka, Raquel, Jussara e José Anselmo. Moravam em Sete Lagoas, e sempre que ia a Minas, Elísio ia visitá-lo. Quando chegava, o Zé dispensava os pacientes do consultório dentário que ainda não tinham sido atendidos e saía para passear pelas fazendas de Minas com o primo. Zé Bahia tinha uma Rural Willis verde. Num destes passeios, foram à Fazenda da Cachoeira de Cima em Maravilhas, onde Miloca passou a juventude. Outro lugar visitado foi o rancho de Zé Bahia às margens do Rio Vermelho. Era um casebre simples, e o Zé queria que Elísio e a família passassem a noite lá, mas ameaçava chover, e tiveram que sair antes do temporal, pois o carro de Elísio não era próprio para estradas de lama. Alguns anos mais tarde, o rio levou o rancho em um ano de muita chuva e enchentes.

Quando ia a Sete Lagoas visitar Zé Bahia, Elísio encomendava com antecedência um garrafão de cachaça da boa e um metro de fumo de rolo. O Zé sabia onde conseguir artigos de primeira, e guardava para Elísio a encomenda. A cachaça, tirada da “cabeça” (o início da destilação, onde o teor de álcool é maior), era fortíssima. Na volta para casa, já em Pedro Leopoldo, Elísio acrescentava à bagagem tripa de porco, pequi e jenipapo, para preparar linguiças e liquores em Niterói. Numa das viagens, o garrafão de cachaça se quebrou no porta-malas, e o cheiro da cachaça era de tontear os passageiros e motorista. Tiveram que parar na estrada mesmo e descer a bagagem toda para retirar o vidro quebrado e secar o porta-malas.

O gosto por mecânica de Elísio era partilhado por seu sobrinho, Mariozinho. Uma vez, Mariozinho apareceu em Niterói com um Jeep Willis do tipo usado durante a Segunda Guerra. Quando Elísio chegou em casa, o Jeep estava todo desmontado na calçada. Os dois devem ter se divertido bastante remontando o carro. E nestes casos, era comum sobrarem algumas peças no final. Mariozinho tinha um caminhão e sempre que passava por Niterói comprava uma torta na Leiteria Brasil e passava na casa de Elísio e Laura. Os filhos de Elísio adoravam a visita, com muitas histórias das aventuras pelo Brasil, e se deliciavam com a torta.

Sítios e Fazendas

Elísio também trouxe de Pedro Leopoldo um gosto pela vida rural, lembrança das fazendas dos tios e primos. Assim que as finanças permitiram, e por incentivo do irmão, Geraldo Bahia, Elísio comprou um sítio – uma posse – em Xerém, na Baixada Fluminense. A compra foi feita em Junho de 1973, e o preço foi de três mil Cruzeiros por sete hectares de terra. Lá, criava porcos e cultivava mandioca e banana. Para complementar a ração dos animais, fez um acordo com a cantina da agência bancária onde trabalhava, e às Sextas-Feiras recolhia as sobras de alimentos e levava para o sítio, para servir de lavagem. A acidez da lavagem chegou a corroer o piso de um Volkswagen TL a tal ponto que Elísio se desfez do carro com medo de que o banco do motorista caísse com o carro em movimento, atropelando o próprio dono. Geraldo Bahia tinha um sítio vizinho, onde chegou a ter um cavalo e uma vaca. Depois, passou a criar frangos de granja e porcos, em sociedade com Elísio. Quando os frangos chegaram ao peso de abate, os irmãos não conseguiram vender o produto, e resolveram usar as aves para consumo próprio. Toda semana, vinham para casa carregados de frangos.

Em 1975, através de um consórcio, Elísio comprou o primeiro carro zero: um VW Brasília. Na primeira noite, deixou o carro dormindo na rua em frente ao apartamento, como fazia com todos os seus carros até então. Mas o carro novo despertou a atenção de oportunistas, que arrombaram o porta-malas e levaram o pneu sobressalente e o macaco do carro. Desde então, Elísio acordava com qualquer barulho suspeito, e gritava da janela se via alguém próximo ao carro. Chegou a colocar atrás da cortina do quarto um poster do Roberto Carlos, que visto da rua à noite parecia alguém vigiando. Com o carro novo, a viagem anual a Pedro Leopoldo transcorreu sem problemas. Lá, porém, o filho João pegou o carro emprestado e amassou o pára-lama numa batida com um caminhão. O carro ficou uma semana na oficina antes de poderem viajar de volta a Niterói. O mesmo carro serviu para uma viagem mais longa, até a Bahia, façanha impensável com os carros anteriores. Foram férias longas, passando por Salvador, Porto Seguro, Ilhéus e Guarapari. De volta ao Estado do Rio de Janeiro, fizeram as visitas costumeiras ao irmão Mário, em Bom Jesus do Itabapoana, e aos cunhados Paulo, em Macabu, e Carlos, em Trajano de Moraes.

Elísio e Laura em Salvador, Bahia, em 1977

No inverno de 1981, Elísio perdeu a mãe, que já estava há algumas semanas doente. Laura já estava em Pedro Leopoldo ajudando a cuidar da sogra, mas Elísio tinha compromissos no trabalho, e só viajou para ver a mãe quando teve notícias de que a sua saúde estava piorando. Ao chegar, Miloca estava sendo velada na sala da casa.

Tendo sentido na pele as dificuldades causadas pela falta de estudo, Elísio dava muito valor à educação dos seus filhos. Sempre repetia que seu avô vendera uma fazenda para pagar a escola dos filhos. Laura também veio de uma família onde a educação era valorizada. João Moreira, um Português vindo para o Brasil por volta de 1915, também fez grande sacrifício para educar seus filhos. Assim fez o casal, e João e Cristina sempre estudaram em boas escolas em Niterói, e depois no Rio de Janeiro. O esforço frutificou e os dois alcançaram nível universitário. João se formou em Engenharia Eletrônica e Cristina em Psicologia. O interesse do rapaz por eletrônica veio por estímulo do próprio pai. Quando o filho tinha uns treze anos, Elísio iniciou um curso por correspondência no Instituto Universal Brasileiro, de técnico em eletrônica. O sonho era montar um rádio, ou melhor ainda, um transmissor de rádio. Mas as apostilas chegavam e iam se acumulando, pois Elísio tinha pouco tempo para digerir o material. Quando começaram a chegar as peças para montar o rádio, Elísio pediu a ajuda de João para montar o aparelho. Com acesso às apostilas, o jovem ávido por informações acabou estudando eletrônica e montando o rádio para o pai.

irmaos_bahia_vianna_1983

Em 1983, Elísio ficou preocupado com sua remuneração futura. O cargo de contínuo havia sido extinto e lhe deram uma posição na portaria do Banco. Com a mudança, perdeu algumas gratificações que conquistara. Fez as contas e descobriu que era melhor se aposentar antes de perder as outras gratificações. Embora tivesse trabalhado desde os dezessete anos, havia poucas anotações na sua carteira de trabalho antes do emprego no Banco do Brasil, e seu tempo de contribuição era de pouco mais de 30 anos. Como era associado da Caixa de Previdência do Banco, sua aposentadoria foi complementada, e reajustada conforme os aumentos dos funcionários da ativa. Com isso, passou a ter uma vida tranquila e pode se dedicar a cuidar dos seus sítios e pescarias, e fazer excursões com Laura pelo Brasil. Uma ou duas vezes por ano, fazia uma viagem ao norte do Estado para visitar os irmãos, Mário em Campos, Geraldo em Cabo Frio, e os cunhados Paulo e Carlos, que também moravam no norte do Estado.

Em 1990, João, comprou uma fazendinha em Conceição de Macabu. O pai emprestou parte do dinheiro para o pagamento, que foi feito à vista. Foi sorte para Elísio. Logo no início do governo de Fernando Collor de Mello, sua equipe econômica criou um plano que confiscou os depósitos bancários e de poupanças, para devolvê-los muitos meses depois, corroídos pela inflação. João tinha um bom salário, e pagou de volta o empréstimo em pouco tempo. O dinheiro foi providencial, porque no mesmo ano se casava a filha, Cristina, e Elísio pode usar o dinheiro para pagar pela cerimônia. Quase sempre que o filho ia à fazenda Elísio ia junto, e por três anos foram muitas aventuras, em que relembrou os velhos tempos do Sítio de Xerém. Na fazendinha, além do gado para engorda, criaram porcos, patos, galinhas d’angola e de pescoço pelado. Cultivaram milho, feijão, mandioca e frutas cítricas, além de plantarem várias árvores frutíferas, das quais poucas vingaram, pois sempre algum boi ladrão pulava a cerca e se deliciava com as folhas tenras da mudinha recém-plantada. No açude ao fundo da propriedade, Elísio pescava traíras no fim da tarde. Sempre voltavam para Niterói com o porta-malas do carro cheio. Eram bananas, mandiocas, carás, … Numa das viagens, João estava sem carro, e foram no Fusca 67 de Elísio. Na estrada, o Fusca foi ultrapassado por um Ford Escort, bem mais novo. Elísio pisou no acelerador e estava elogiando o carro por conseguir acompanhar o outro quando o motor pifou. Conseguiram chegar com muito custo a uma oficina próxima, onde o mecânico constatou que um dos cilindros havia furado com o esforço. Removida a vela do cilindro furado, o carro ainda rodou uns oitenta quilômetros com apenas três cilindros funcionando e em velocidade reduzida até chegarem ao destino, onde a peça foi substituída.

João, Paulo, Laura e Elísio em Conceição de Macabu, 1993

João, Paulo, Laura e Elísio em Conceição de Macabu, 1993

Quando se tornou avô, em 1992, Elísio morava no Bairro de São Francisco e possuía um sítio no Rio do Ouro. Ia lá toda semana, mas também gostava de se reunir com os amigos em uma padaria perto de casa, em frente à praia. Quando saía de casa, dizia à neta que ia para o sítio, para não ter que levá-la junto, mas algumas vezes Laura saía com a neta e o encontravam na padaria. Certa vez, a menina pediu ao seu tio Amaro que comprasse para ela balas do tipo que havia no “Sítio do Vovô”. O tio lhe disse que o sítio era muito longe, e não poderia ir lá para comprar a bala. A menina então retrucou: “Não tio Amaro! O Sítio do Vovô é logo ali na praia” [1].

Elísio e a neta, Jéssica

Elísio e a neta, Jéssica

No “Sítio do Vovô” havia dois frequentadores ilustres: Manoel e Joaquim, dois cães de rua. Joaquim sempre acompanhava um morador de rua, e Manoel gostava muito de Elísio e de Chumbo, um motorista de ambuläncia muito amigo de Elísio. Os dois cães eram mimados por todos, e acabaram com problemas de coração e de hipertensão, de tanto comerem presunto no bar, já que recusavam qualquer outra comida. Em dia de vacinação de animais, cada um que se lembrava levava o Manoel ao posto de vacinação. A funcionária do posto perguntava: “Qual é o nome do cachorro, e o endereço?” Ao saber que este era o Manoel e o endereço era o da Padaria, a funcionária exclamava: “Mas este já veio aqui várias vezes!!” Manoel gostava de acompanhar o carro do Bahia. Corria atrás do veículo até se cansar e perder distância, e então voltava para a padaria. Um dia Manoel seguiu Chumbo pela ladeira que levava à sua casa e não resistiu – morreu de infarto no caminho.

Elísio e a família em Dezembro de 2005

Elísio e a família em Dezembro de 2005

Em um dia de Abril de 2006, como era de costume, Elísio foi para o Sítio do Rio do Ouro. A tarefa escolhida para aquele dia quente foi pintar o portão de entrada. No caminho de volta, Elísio passou mal e encostou o carro no Largo da Batalha. Havia sofrido um acidente vascular cerebral. Passou algum tempo dentro do carro quente até que alguém percebesse que havia algo errado e o socorresse. Foi levado para o posto de saúde local e a filha Cristina foi avisada, e veio socorrer o pai, mas muito tempo se passou até que Elísio fosse atendido. O dano foi grande, e Elísio perdeu os movimentos e a fala. Os rins, fígado e pulmão já comprometidos com os abusos da juventude impediram que o tratamento necessário fosse administrado, e ele não resistiu nem uma semana no hospital. Dos irmãos Bahia Vianna, tinha sido o penúltimo a nascer, e foi também o penúltimo a partir, deixando viva a irmã caçula, Maria Mária.

João Bahia Vianna

Agosto de 2014

Referências

[1] – MOREIRA, Maria Laura – Relatos gravados em arquivos MP3

[2] – VIANNA, Mário da Conceição – Anotações pessoais

[3] – VIANNA, João A. M. Bahia – Memórias de conversas com seu pai e seus tios

Notas

(1) – Certidão de Nascimento de Elísio
“Cópia do registro civil de meu filho Elísio Bahia Vianna.
Raymundo Gonçalves, Escrivão Interino de Paz e official do registro civil desta cidade de Pedro Leopoldo, Estado de Minas Geraes,
Certifico que revendo os meus livros de registro de nascimento de n.5 (folhas 179v) folhas cento e setenta e nove, verso, encontrei as seguintes declarações. N.59 – Elísio Bahia Vianna – Aos 5 – cinco dias do mês de Maio do anno de mil novecentos e vinte e oito (1928) em meu cartório, nesta cidade de Pedro Leopoldo, da Commarca de Santa Luzia, Estado de Minas Geraes, compareceu o Sr. Mário da Conceição Vianna, brasileiro, casado, empregado da Estrada de Ferro Central do Brasil, natural desta cidade, que conheço ser o próprio, e em presença das testemunhas abaixo assignadas declarou que no dia vinte (20) digo no dia treis (3) deste mês de Maio do corrente annom aos (20) vinte minutos do dia, em seu domicílio à Rua Neiva, nasceu uma criança de côr clara, do sexo masculino, e que logo lhe puseram o nome de Elísio, é o 6º filho legítimo delle declarante e sua mulher D. Maria Emília Bahia Vianna, esta natural de Maravilhas, do município de Pitangui, tendo a criança os seguintes avós: pelo lado paterno de Francisco de Paula Fonseca Vianna e D. Carolina Vianna, elle já fallecido e esta reside nesta cidade e pelo lado materno de Cândido Gonçalves dos Reis e D. Anna Gonçalves Bahia, ambos já fallecidos. Do que para constar faço este termo que vae assignado pelo declarante, pelas testemunhas e por mim José Teixeira Júnior, Escrivão interino que escrevi e assigno. José Teixeira Júnior, Mário da Conceição Vianna, Francisco Xavier, Lindolpho José Ferreira. É tudo que contém o dito registro e que copiei fielmente e dou fé. O escrivão interino de Paz. ass. Raymundo Gonçalves
Pedro Leopoldo, 3 de Julho de 1928 ass. Raymundo Gonçalves
Copiado em 5 de Julho de 1928. Mário C. Vianna”

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Miloca

Maria Emília Gonçalves Bahia (Miloca) nasceu em 28 de Maio de 1889 em Maravilhas, Pitangui, MG. Era a filha mais nova de Cândido Gonçalves dos Reis e Anna Alvarenga Bahia, uma família numerosa, a segunda formada por Cândido, depois que ficou viúvo de Ana Rosa Rodrigues. A mãe, Don’Anna, era descendente do Sargento Mor Inácio da Cunha Alvarenga e de Maria Felisberta da Silva, a Maria Tangará, de quem se contam muitas lendas em Pitangui.

Miloca 1915

Miloca em 1915

 Uma infância rural

Miloca foi criada na Fazenda da Cachoeira de Cima, em Maravilhas. Em uma visita realizada no início dos anos 70, parte da fazenda ainda resistia ao tempo. Uma escada na frente dava para a varanda, onde um primo de Miloca apreciava um cigarro de palha. A ala esquerda estava em ruínas, mas na ala da direita ainda se podia visitar o oratório da família. Na parte de trás do casarão se encontravam as ruínas do engenho de cana, e ainda havia enormes tachos utilizados para fazer melado e rapadura. No riacho que corria nos fundos, a latrina ficava em uma casinhola de madeira, como nos tempos em que Miloca esteve por lá. À direita da casa, numa elevação, havia mangueiras centenárias. Os tempos passados na fazenda deixaram saudades, e Miloca comentou isto algumas vezes em seu caderno de modinhas.

Do casamento de seu pai com Anna Alvarenga Bahia, Miloca teve pelo menos oito irmãos, que ficaram com o sobrenome Gonçalves Bahia: Manoel (Nelinho), Elisa (Sinhá), Joaquim (Sô Quim), Cândido (Candinho), Francisco (Chiquinho), Joviniano (Jove), Leopoldo e José Josias (Jusa). Havia outros três meio-irmãos, filhos do primeiro casamento de Cândido, que tinham o sobrenome Gonçalves dos Reis: Benvindo, Antônio (Sô Nico) e Joaquim.

Miloca não viveu o tempo da escravidão, mas ouvia de sua mãe e dos irmãos mais velhos histórias de como sua mãe fazia viagens ao Rio de Janeiro, adornando de jóias as escravas que a acompanhavam, como demonstração de sua riqueza. Iam a cavalo até a cidade onde ficava a estação de trem, e de lá para o Rio. Durante esses passeios, os filhos recém-nascidos eram entregues a amas de leite. Algumas vezes, quando retornava, Don’Anna recebia a notícia de que um filho havia morrido. Não há registro das causas, mas pode-se imaginar que a falta de cuidados básicos de higiene e picadas de animais peçonhentos estivessem dentre elas. Naquele tempo, não havia antibióticos, e uma simples desinteria ou uma pneumonia eram letais para uma criança com o sistema imunológico em formação.

A mudança para Pedro Leopoldo

Os filhos mais velhos de Don’Anna tinham quase vinte anos a mais que Miloca, de forma que sua irmã Elisa Gonçalves Bahia se casou quando Miloca era ainda muito criança. O casamento de Elisa e a morte do pai, Cândido, em 1895, causaram uma grande mudança na vida dos Gonçalves Bahia.

Viúva, Don’Anna deixou Maravilhas e se mudou para a emergente vila de Pedro Leopoldo, onde Elisa foi residir com seu marido, Ottoni Alves Ferreira da Silva, filho de Antônio Alves Ferreira da Silva que, por sua vez, fundou a Companhia Fabril Cachoeira Grande. Em 1897, a capital do Estado de Minas Gerais foi transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte, mais um fator para acelerar o progresso na outrora pacata freguesia de Santa Luzia.

Ottoni e Elisa

Ottoni, Elisa e filhos

Juventude e Poesia

Na cidade, Miloca alcançou a adolescência, e, depois de ter recusado seu primeiro noivo, colecionou pretendentes que lhe faziam serenatas e lhe ofereciam versos. Gostava de cantar e aprendeu a tocar violão. Lembrava-se com saudades dessa época e mesmo depois de ter perdido a afinação da voz ainda recitava os poemas das modinhas para os netos que parassem para ouvi-la.

Uma modinha deve ter recebido especial atenção da moça, por ter seu nome no título: Perdão Emília, que foi criada no ano do seu nascimento. Em um caderno onde Miloca transcreveu diversas modinhas, uma folha solta continha a cópia feita por seu sobrinho, Christiano Ottoni Gonçalves Ferreira, em 1912, quando estava em Ouro Preto.

Modinha

Perdão Emília

 

Perdão Emília

Jose Henrique da Silva e Juca Pedaço

Já tudo dorme, vem a noite em meio.
A turva lua vai surgindo além.
Tudo é silêncio, só se vê nas campas
piar o mocho no cruel desdém.

Depois, um vulto de roupagem preta,
No cemitério com vagar entrou.
Junto ao sepulcro, se curvando a meio,
Com tristes frases nesta voz falou:

Refrão:
Perdão, Emília, se roubei-te a vida,
Se fui impuro, fui cruel, ousado...
Perdão, Emília, se manchei teus lábios.
Perdão, Emília, para um desgraçado.

Monstro tirano, pra que vens agora
Lembrar-me as mágoas que por ti passei?
Lá nesse mundo em que vivi chorando,
Desde o instante em que te vi e amei.

Chegou a hora de tomar vingança,
Mas tu, ingrato, não terás perdão...
Deus não perdoa as tuas culpas todas,
Castigo justo tu terás, então.

Roubaste as flores da capela virgem...
Cedi ao crime que perdão não tinha,
Mas tu manchaste minha vida honesta
Depois zombaste da fraqueza minha.

Ai quantas vezes aos meus pés curvado
Davas-me prova do teu puro amor.
Quando eu julgava que tu fosses anjo,
Não via fundo neste olhar traidor.

Mas eis que um corpo resvalando a terra
Tombou, de chofre, sobre a pedra fria.
E quando a aurora despontou, na lousa
Um corpo inerte a dormitar se via.

(repete o refrão)

Formando uma nova família

Em 8 de Maio de 1915, Miloca se casou com Mário da Conceição Vianna (veja o Post O Casamento). Desta união nasceram nove crianças, sendo que o primeiro, Francisco (Chiquinho), faleceu antes de nascer o segundo filho, Rivadávia (Riva), em 1917 e o sexto, Cândido (Candinho), nascido em 1925, faleceu com menos de três anos de idade. Miloca contava que um dia seu filho Geraldo fez uma travessura e subiu na mesa. Candinho, nervoso, correu para avisar a mãe: “Mamãe! Neném subiu na mesa!” Enquanto a mãe acudia o filho mais novo, Candinho passou mal e faleceu. Devia ter um problema no coração ou um aneurisma que o susto trouxe à tona. Os filhos que chegaram à idade adulta foram, nesta ordem: Rivadávia (Riva), Mário (Mariozinho), Caio, Raymundo (Mundinho), Geraldo, Elísio e Maria Mária.

A criação dos filhos nos primeiros anos do casamento deve ter dado muito trabalho a Miloca, sempre com um filho no colo e outro agarrado à barra da saia. Don’Anna ajudava a cuidar dos netos, e a irmã Elisa muitas vezes mandava para Miloca uma cesta cheia de quitandas. Don’Anna também cedeu ao casal um terreno onde eles construíram sua casa. Pelos endereços declarados nas certidões de nascimento dos filhos, podemos traçar a trajetória da família: Em 1915, o casamento de Miloca foi realizado na casa da mãe, à Rua Ferreira e Mello (renomeada mais tarde para Antônio Alves). Em 1919, quando nasceu Mariozinho, moravam na mesma rua. Provavelmente, Miloca passou os primeiros anos do seu casamento na casa da mãe, ou em alguma casa próxima. Em 1924, quando nasceu Mundinho, haviam se mudado para a Rua Dr. Neiva, onde nasceram todos os filhos mais novos. Este deve ser o lugar do terreno cedido pela mãe. Por volta de 1926, Miloca perdeu a mãe. No casamento da filha mais nova, Maria Mária, em 1948, Miloca já estava de volta à Rua Antônio Alves próximo à esquina com a Rua Dr. Herbster, onde Don’Anna teve uma chácara (Esta mudança deve ter ocorrido bem antes, conforme o tópico seguinte). Foi feita uma reforma na casa, dividindo-a ao meio para que Mária tivesse seu próprio espaço. Miloca contava que o quintal da casa ia até o Ribeirão da Mata, e que parte do terreno foi cedida para o Clube Social de Pedro Leopoldo.

Casa de Miloca

Casa de Miloca na Rua Antônio Alves

Tristeza

Em 1932, Miloca teve problemas de saúde, e solicitou duas licenças, a segunda com metade dos vencimentos (DOU 1932-04-23 p.32 e 1932-08-24 p.23). Em 1934, sofreu uma cirurgia de urgência. Consta que foi um problema no intestino. Deste episódio, recuperamos um telegrama avisando do problema à Caixa de Pensões da E.F.C.B.

miloca_telegrama

Telegrama informando cirurgia de Miloca

“Telegramma de Serviço a Transmitir

De Pedro Leopoldo para D. Pedro II e Sete Lagoas
Expedidor JV10; Destinatário Presidente Caixa Pensões e Médico Posto
… 10 de 10 de 1934
Esposa escrevente Mário da Conceição Vianna gravemente enferma soffrerá intervensão sirurgica inadiável. Não pode viajar. (a) D. Ferreira
Confere Em 1-11-1934
José Lourenço Pereira
P.Q.V.2ª”

Em 1935, Miloca trabalhava nos Correios. O quarto da frente de sua casa recebeu uma porta para o alpendre, e funcionava como Agência dos Correios em Pedro Leopoldo. A cidade era pacata, e o movimento era pequeno. Trabalhando em casa, podia cuidar dos filhos mais novos e acompanhar as tarefas domésticas. As horas passadas no trabalho eram horas de solidão. Miloca passava o tempo copiando em um caderno modinhas de sua juventude. Assinava e datava cada uma, e abaixo dos versos fazia comentários sobre a própria vida. Com os filhos estudando em internatos, a casa estava vazia, e a mãe saudosa se queixava disso.

Miloca Saudades

Comentário de Miloca, com saudades dos filhos

“Pedro Leopoldo 4 de Outubro de 1935

Manhã Chuvosa. Não sei se passarei bem hoje, espero em Deus que sim.
Estou com muitas saudades de meus filhos, Riva e Mariozinho.
Miloca”

miloca_tristeza

Miloca triste nos Correios

“Peço a Deus para me dar vida tranquilla.

Pedro Leopoldo, 9 de Outubro de 1935
Na minha casinha, em frente ao Club Recreativo, eu tenho o correio, o qual me faz passar dias bem tristonhos. Hontem foi um delles.”

Em Novembro de 1942, faleceu Mário. O episódio foi relatado no Post Mário da C. Vianna. Viúva, Miloca deixou de receber seu salário de Dezembro e mais tarde fez um requerimento para reavê-lo.

Miloca pede pagamento

Miloca solicita pagamento de seus vencimentos.

“Exmo. Sr. Diretor Regional dos Correios e Telégrafos de Minas Gerais

Maria Emília Bahia Vianna, agente auxiliar IV lotada nessa Regional, tendo por motivos independentes de sua vontade deixado de receber os seus vencimentos relativos ao mês de Dezembro último (1942), vem respeitosamente requerer o pagamento dos mesmos, de vez que a quantia a eles referente se acha depositada nessa D.R., levada a conta de Restos a Pagar de 1942.
P. deferimento”

Êxodo

Com o falecimento de Mário, os filhos do casal se dispersaram em busca de seus próprios caminhos. Mundinho foi para Goiânia, Riva, Caio e Mariozinho para Barra do Piraí, sendo que depois Caio foi para Barra Mansa e Mário para Campos. Elísio e Geraldo ainda eram menores, e permaneceram por algum tempo em Pedro Leopoldo, indo depois trabalhar em Belo Horizonte. De lá, Geraldo foi para o Rio de Janeiro e Elísio perambulou por vários lugares, incluindo Matosinhos, Barra Mansa, São Paulo, Contagem e de volta a Pedro Leopoldo, até que se fixou em Niterói.

Carteira de Trabalho de Elísio

Folha da Carteira de Trabalho de Elísio, mostrando empregos em São Caetano do Sul e Contagem

Riva e Mário se casaram pouco depois de sair de casa. A partir de 1944, começaram a nascer os netos. Logo depois que Riva se casou, a irmã, Mária, foi para a sua casa em Barra do Piraí para completar os estudos, mas ao voltar de férias para Pedro Leopoldo iniciou um romance que a levou a se casar com Paulo Mello. Os últimos a se casar foram Elísio e Mundinho.

Casamento de Maria

Casamento de Mária, realizado em 1948

Lembranças da Vó Miloca

Passados os anos, vieram os netos. Cada filho lhe deu pelo menos dois. Os Bahia Vianna haviam se espalhado por várias cidades do Sudeste, e o tempo de reunir a família na casa da matriarca era o fim do ano, perto do Natal e Ano Novo. Este ritual se repetia todos os anos. Nem sempre vinham todos, mas a casa ficava sempre cheia nestas ocasiões. Sempre encontrávamos um presépio montado, com muitas estatuetas de cerâmica sobre um pano que imitava pedra, que só seria desmanchado no Dia de Reis, 6 de Janeiro.

Miloca e netos

Miloca e seus netos

Sendo eu um dos netos mais novos, minhas lembranças da Vó Miloca são de uma senhora risonha sentada em sua cadeira de balanço com longos e fartos cabelos brancos, usando óculos com grau muito forte, que tornavam seus olhos enormes. Ao lado da cadeira ficavam as muletas que a sustentavam depois de ter quebrado o fêmur, em meados dos anos 50. Quando não estava na cadeira de balanço, ficava apreciando o movimento da rua no alpendre ao lado da casa. Todos os vendedores ambulantes que batiam à porta acabavam lhe vendendo alguma coisa, mesmo desnecessária. Da mesma forma, todos que vinham pedir esmola eram atendidos. Quando os filhos reclamavam, Miloca respondia: “E se o pedinte for Jesus Cristo disfarçado?”

Miloca 1979

Miloca em 1979

Com tantos netos, Miloca não se lembrava do nome de todos, e me chamava de ‘Como Chama?’. A sua dispensa estava sempre cheia de quitandas nos aguardando. Em uma cristaleira da sala ficava uma lata de biscoitos com uma amostra, que ela oferecia às visitas. Em alguns dias de sorte, a velha senhora tirava do chaveiro que ficava preso à sua cintura a chave da dispensa e dizia “Ô! Como Chama? Tome aqui a chave da dispensa e vá pegar umas quitandas para você. Quando terminar, feche bem fechado e me traga a chave de volta.” Desconfiada, nunca deixava a dispensa nem a cristaleira abertas.

Quando as noras pediam, Miloca lhes ditava as receitas dos doces que fazia, mas as tentativas de reproduzir quecas e outras delícias nunca chegavam nem perto. Certa vez, minha mãe resolveu acompanhar de perto a preparação de um doce, com a receita na mão. Miloca seguiu a receita de início, misturando os ingredientes e batendo a massa. Mas então achou que a massa estava muito macia e acrescentou um punhado de farinha, sem medida, mais um pouco e provou, acrescentando mais açúcar. De outra vez, acrescentou um ovo. Estava revelado o segredo de Miloca – as receitas precisavam de calibragem. A triste conclusão era de que não seria possível obter o mesmo resultado sem a ajuda de Miloca.

Queca de Miloca

Receitas de Miloca

Os mantimentos vinham do Armazém do Zé Pedro, onde as compras eram anotadas em uma caderneta, e pagas no fim do mês. Quando se comprava carne de porco, a pele e o toucinho vinham juntos. Da pele se faziam deliciosos torresmos e a banha era guardada em latas onde ficava a carne depois de cozida. No dia de servir, os pedaços de carne eram fritos na própria banha, e ficavam muito bons. Tudo que é gostoso leva açúcar, manteiga ou gordura animal. O arroz era amarelo bem forte, colorido e aromatizado com urucum. Uma tradição que depois foi seguida pelo meu pai foi o preparo de licores de pequi e de jenipapo. Lembro-me das bacias com as frutas cortadas, e as garrafas de cachaça que seriam usadas para fazer a infusão. Durante o preparo, o cheiro do jenipapo impregnava toda a casa.

Minha avó tinha sempre um sorriso nos lábios, e era um tanto irônica. Gostava de repetir um versinho do qual as noras não deviam gostar nem um pouco: “Os filhos da minha filha meus netos são. Os filhos dos meus filhos serão ou não.” Quando queria intrigar algum neto, propunha uma charada: “Leçon de Francais… Quandé curucundá?” Ao nos ver atônitos, sem resposta, abria um sorriso largo e respondia: “Setembro! Urucum dá em Setembro!” Outras vezes, recitava para nós alguma modinha antiga, ou quadrinhas de versos. Os netos mais velhos chegaram a ouvi-la tocar violão. Certa vez o instrumento me foi oferecido quando a avó soube que eu estava aprendendo, mas tinha cordas de aço e faltavam duas, que só eram vendidas em Belo Horizonte. Ficou para um outro dia.

Miloca gostava de carne de porco e outras comidas pesadas. Como já estava com idade avançada, sua filha, Mária, mandava fazer para o jantar comidas mais leves, com saladas de legumes. Miloca se levantava no meio da noite e assaltava a geladeira, comendo um belo pedaço de carne de porco. No outro dia, reclamava de indigestão, e dizia: “O que me fez mal foi aquela cenoura do jantar. Carne de porco não faz mal. Nada do que a gente gosta faz mal”. Outro hábito que conservou até bem tarde foi o tabagismo. Quando não estava conversando com alguma visita, ficava assistindo televisão e fumando seu cigarro. Vez por outra, pedia a um neto: “Si minino! Vai pr’a mim ali no buteco da esquina e compra um maço de Continental sem filtro. Toma aqui o dinheiro e pode comprar balas com o troco.” Na sala havia sempre muitas revistas de fotonovelas, que a anciã gostava de folhear.

Vaidosa, quando via anúncios de televisão sobre produtos para o cabelo, Miloca mandava alguém à farmácia para comprá-los. Depois, reclamava: “Estes anúncios de televisão são mentirosos! Comprei o produto e passei no cabelo, mas não ficou do jeito que eles mostraram naquela moça bonita do anúncio”. E para mostrar que já sabia disto antes de comprar o produto, dava um sorriso irônico. Outra vez, ouviu o reclame: “Regulador Xavier, para a saúde da mulher”. Quando comprou e foi ler as instruções, percebeu que o produto era para mulheres que ainda estavam em idade fértil e deu uma gargalhada.

Uma criatura esteve sempre associada com a casa de minha avó – o papagaio. Era bravo, e quando caía no chão só a dona conseguia pegá-lo, estendendo a muleta para o papagaio subir. No chão, enquanto Miloca não vinha, o papagaio era perseguido pelo Little, o cachorro pequinês da neta, Neném. De manhã, com fome, o papagaio gritava: “Miloca! O Miloca! Café pr’o lourinho” e imitava os latidos do cão. O papagaio aprendeu a cantar: “A Bahia não dá mais côco para fazer a tapioca. Deram um bom mingau para enganar os Cariocas. Papagaio louro, do bico dourado, tu que falavas tanto por que motivo estás calado!” Outra associação inevitável com as visitas a Pedro Leopoldo era o pomar, onde havia bananeiras ao fundo, umas três ou quatro mangueiras, uma pitangueira, um pé de fruta do conde, um grande abacateiro onde dormiam as galinhas do tio Paulo e, em especial, um pé de carambola, onde eu subia para me deliciar com as frutas maduras.

Miloca tinha duas sobrinhas, Nanci e Altiva (Tivinha), sendo Nanci sua afilhada. Altiva foi namorada do Riva. As duas permaneceram solteiras, e uma cuidava da outra. Riva sempre mandava para elas uma ajuda financeira. Elísio também colaborava quando ia a Pedro Leopoldo. As duas eram muito religiosas, e sempre rezavam muito por todos da família. Gostavam de preparar doces: ambrosia, quecas e doce de cidra. Quando nos recebiam de visita, não sabiam o que fazer para agradar.

Havia uma beata na cidade, chamada Sá Rogéria. Ela ralhava com Miloca por usar saias que deixavam ver as pernas. Sá Rogéria usava as suas até os pés. Miloca respondia que Sá Rogéria não mostrava as pernas porque eram feias. A beata, então, mostrava que suas pernas eram bonitas também.

No inverno de 1981, Miloca pegou uma pneumonia. Lúcia, esposa do Riva, veio para ajudar a Mária a cuidar da mãe. Depois, vieram as noras Laura e Célia. A doença se agravou e foi necessário levar Miloca para o hospital. O filho, Mundinho, veio de Goiânia e se revezava com Mária e Laura no acompanhamento da enferma. Quando estava com disposição melhor, Miloca lembrava de várias passagens de sua vida, relembrando seu passado. Na casa, o cãozinho sentia a falta da companheira, e ficava deitado embaixo da cadeira de balanço vazia. A doença se agravou e Miloca não resistiu. Com ela, adormeceu parte da vida dos filhos e netos. Minhas viagens a Pedro Leopoldo rarearam, e posso contar nos dedos as vezes em que voltei.

João A. M. Bahia Vianna

Julho/2014

Referências

[1] – MOREIRA, Maria Laura – Relatos gravados em arquivos MP3
[2] – VIANNA, João A. M. Bahia – Memórias de conversas com seu pai e seus tios

 


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Mário da C. Vianna

Mário da Conceição Vianna nasceu em 8 de Dezembro de 1892 em Pedro Leopoldo, MG. Era filho de Francisco de Paula da Fonseca Vianna e Laurinda Carolina Vianna (originalmente de Souza). Seu pai tinha um tio com o mesmo nome, que se tornou Visconde do Rio das Velhas.

Mário Vianna por volta dos 23 anos de idade.

Mário Vianna por volta dos 23 anos de idade.

Tempos de Mudanças

Os anos em torno do nascimento de Mário foram anos de grandes mudanças na região, ainda parte da Freguesia de Matosinhos, Distrito de Santa Luzia. Apenas quatro anos antes, em 13 de Maio de 1888, havia sido proclamada a Lei Áurea, libertando os escravos que formavam a base da mão de obra usada nas fazendas da região. Em seguida, a Proclamação da República, em 15 de Novembro de 1889, pôs fim ao Império, e mudou a estrutura administrativa do país. Em Fevereiro de 1893 faleceu o Visconde do Rio das Velhas, tio-avô de Mário que tinha o mesmo nome que seu pai [1]. Já então o lugarejo deixava o marasmo dos tempos Imperiais e começava a se movimentar com os ventos do progresso. Em Setembro de 1893 foi fundada a Companhia Fabril Cachoeira Grande, fábrica de tecidos em que o pai de Mário, Nhô Chico, se tornou diretor. A fábrica foi construída onde antes havia a Fazenda da Cachoeira Grande, em que residiram três moças da família Moreira da Silva, de quem descendia Brígida Honorina Gonçalves Moreira da Silva, avó paterna de Mário. Dois anos mais tarde, seria inaugurada a Estação Ferroviária em terrenos doados pelos fundadores da fábrica. Era responsável pela construção daquele trecho o engenheiro Pedro Leopoldo. Com seu falecimento, o nome da estação foi modificado em sua homenagem, e o lugar passou a ser conhecido pelo nome do engenheiro.

Recorte de jornal mostrando a Ata de Constituição da Companhia Fabril Cachoeira Grande (n1)

Recorte de jornal mostrando a Ata de Constituição da Companhia Fabril Cachoeira Grande (¹)

Nascimento e Infância

O documento que encontramos a respeito do nascimento de Mário data de 1938, onde ele mesmo é o declarante, aos 45 anos de idade, tendo por testemunhas o irmão, Sócrates Colaro Vianna e Nelson Belisário Vianna. Teria se perdido o original? Como já mencionamos, os anos em torno do seu nascimento foram anos confusos, em que a administração estava em transição.

O nome já havia sido planejado antes do nascimento. Em tempos em que não havia ultra-sonografia que determinasse o sexo dos bebês, mas sabendo que a criança nasceria próximo do dia de Nossa Senhora da Conceição, já estava combinado que se fosse menina, se chamaria Maria da Conceição. Nasceu um menino, que ficou com o nome de Mário. Ele não gostava do nome do meio, e por isso assinava Mário da C. Vianna. [4]

Certidão de Nascimento de Mário da Conceição Vianna

Certidão de Nascimento de Mário da Conceição Vianna (²)

A família Fonseca Vianna tinha tradição na região, e participou da fundação da fábrica de tecidos e da cidade. A saga dos Vianna, descendentes de Bernardo de Souza Vianna, está descrita em detalhes por Eduardo de Paula em seu Sumidoiro’s Blog [3]. O bisavô, José de Souza Vianna, foi senhor de muitas terras e escravos, mas duas gerações de proles numerosas, seguidas da perda de valor dos grandes latifúndios ocorrida com a abolição da escravatura resultaram em um pequeno quinhão para seu pai.

Sobre os pais de Mário, sabe-se pouco. Francisco de Paula, Nhô Chico, tornou-se diretor da fábrica de tecidos fundada alguns meses depois do nascimento de Mário. Há também indícios de que era proprietário da Fazenda do Campinho, em Santa Luzia, MG. Há versões controversas de como Nhô Chico dispôs de sua herança: Teria vendido as terras para educar os filhos, ou trocado por quase nada, para alimentar seus cavalos. Pouco se sabe também das origens de Laurinda Carolina. Teria sobrenome Souza quando solteira. Na Certidão de Nascimento de Mário constam os avós paternos, mas não os maternos. Em seus relatos sobre a família, Miloca, esposa de Mário, dizia que Laurinda era muito religiosa, e ajudou a construir a primeira Igreja de Pedro Leopoldo [2].

Nhô Chico e Laurinda em Janeiro/1907 (imagem cedida por Carlos Aníbal Fernandes de Almeida [1])

Nhô Chico e Laurinda em Janeiro/1907 (imagem cedida por Carlos Aníbal Fernandes de Almeida [1])

Quanto aos irmãos, eram Guiomar, Joaquim, Sócrates e Cyro. No assento de óbito de Nhô Chico, se sabe que o mesmo deixou cinco filhos vivos [1]. Não há informação sobre a data de nascimento de todos, mas se sabe que Guiomar e Joaquim de Paula Vianna, Quincota, eram cerca de dez anos mais velhos que Mário. Já Cyro seria o irmão mais novo.

Vida Adulta

Mário era organizado, e possuía uma caderneta onde mantinha registro dos aniversários de parentes e amigos, além de outras anotações. É lá que vamos buscar algumas informações sobre sua vida.

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Caderneta de Notas de Mário

Desde rapaz, gostava de caçadas, cães e cavalos. Seu gosto por estas atividades ficou registrado na lista de seus objetos pessoais. Na mesma página constam outras informações, como seu cargo na Estrada de Ferro Central do Brasil, situação militar e eleitoral.

Notas sobre armas e documentos de Mário Vianna

Notas sobre armas e documentos de Mário Vianna (³)

As notas de Mário nos informam que em 1910 o rapaz estava no Paraná, onde comprou um revólver. Participava nesta época, junto com o irmão Quincota, da construção de uma estrada de ferro, conforme ilustram fotos de família.

Foto de Mário no Paraná (terceiro em pé, da esquerda para a direita)

Foto de Mário no Paraná (terceiro em pé, da esquerda para a direita)

Nas notas, Mário também menciona uma espingarda L. Vendrix.

Capa de catálogo mostrando armas semelhantes às que Mário possuía

Capa de catálogo mostrando armas semelhantes às que Mário possuía

Irmãos Vianna

Foto dos irmãos Vianna, mostrando Mário com sua espingarda

Em Setembro de 1912 faleceu Nhô Chico (⁴). Mário tinha 20 anos e neste mesmo ano foi admitido como funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde permaneceu até seu falecimento (ver Post – O Casamento). Ao final da carreira, já era Chefe de Escritório.

Em 1915, Mário se casou com Maria Emília Gonçalves Bahia (Miloca), e com ela teve oito filhos, nascidos entre 1919 e 1930. Era pai rigoroso, e temido pelos filhos. Mesmo assim, as crianças aprontavam suas artes. Quando Miloca fazia goiabada, deitava o doce em uma gaveta, de onde tirava fatias para servir de sobremesa. Inconformados com seu quinhão, os meninos abriam a gaveta até o fim e iam tirando pedaços de trás para a frente. Quando percebiam que o feito seria descoberto, incitavam o irmão mais novo, Elísio, a mostrar sua coragem, e assumir sozinho a autoria da travessura. Elísio assim o fazia, e levava uma grande surra [2].

Mário passava muito tempo ausente de casa, ocupado com suas caçadas, o que suscitava queixas e ciúmes de Miloca. Conta-se que tinha um cão que aprendeu a pegar seus chinelos, quando solicitado, e que ia à venda para pegar pequenas encomendas. O dinheiro ia preso à coleira, e só podia ser retirado pelo vendedor quando a mercadoria estivesse entregue, colocada na cestinha que carregava. Mário tinha também muitos passarinhos, e os filhos cuidavam das gaiolas. Certa vez, o filho Elísio confundiu a garrafa de soda cáustica, usada na limpeza, com leite. Virou a garrafa na boca, e sofreu sérias queimaduras na garganta [2].

Quando os filhos alcançaram idade escolar, Mário mandou-os para estudar em colégios internos em Minas.

Mário Vianna e família em Julho/1930. Nesta data, Miloca está grávida de Maria Mária, a filha mais nova.

Mário Vianna e família em Julho/1930. Nesta data, Miloca está grávida de Maria Mária, a filha mais nova.

Mário também registrou em sua caderneta o falecimento de Laurinda junto à data se seu aniversário. Na nota se lê: “Agosto … 19 Laurinda C.V. +3/5/38”

Notas de Mário, registrando o falecimento de Laurinda

Notas de Mário, registrando o falecimento de Laurinda

Ainda na caderneta, há anotações sobre um Certificado de Exceção Militar, datado de Dezembro de 1938. Nesta época, o Brasil estava sob o governo de Getúlio Vargas, e Minas Gerais acabara de sofrer uma derrota em sua tentativa de se tornar independente do Brasil e criar sua própria constituição. Mário passou ao largo destes anos conturbados, e continuou sua vida como civil, mas não ficou longe da política, como se vê no parágrafo seguinte.

Em 8 de Novembro de 1942, ao pular a cerca do escritório onde trabalhava, na E.F.C.B., Mário sofreu um ataque cardíaco e faleceu. No velório, o papagaio de Miloca, que estava acostumado a comícios políticos, viu toda aquela gente e começou a gritar: “Viva o prefeito! Viva o partido!…”. Tiveram que levar a ave para fora da casa [2].

Santinho distribuído no sepultamento de Mário Vianna

Santinho distribuído no sepultamento de Mário Vianna (⁵)

Antes de completar 50 anos de vida, Mário deixou Miloca viúva com sete filhos, alguns ainda na escola. Mária, a mais nova, tinha apenas doze anos. O processo de requerimento de pensão demorou a ser aprovado, e neste intervalo a família passou por dificuldades, e os filhos mais novos acabaram por abandonar os estudos. Os filhos mais velhos estavam em idade de convocação para os combates na Segunda Grande Guerra, e o segundo, Mariozinho, já havia servido na Marinha, mas nenhum deles serviu no combate.

João A.M. Bahia Vianna
Julho/2014

Notas:

(¹) – “Companhia Fabril Cachoeira Grande
Acta da constituição de uma sociedade anonyma que se denomina – Companhia Fabril Cachoeira Grande.
Às onze horas da manhã do dia vinte e três de Setembro de 1893, na Fazenda da Cachoeira Grande, freguezia de Mattosinhos, município e comarca de Santa Luzia do Rio das Velhas, reunidos os cidadãos abaixo assignados, foi acclamado presidente da reunião o tenente coronel João Alves Ferreira da Silva, o qual tomando assento à mesa, convidou para servirem de 1º e 2º secretários Cândido da Fonseca Vianna, e Antônio Miguel de Cerqueira, os quais também tomaram assento.

Entrando em discussão, foram unanimemente approvados, sendo pois este estatuto pelo qual se regerá a dita sociedade hoje constituída, pelo presidente foi dito que estando approvado o estatuto da sociedade, devia-se em observância ao art.15 do mesmo estatuto, proceder à eleição de 3 directores e commissão fiscal composta de três membros; procedendo-se a eleição, foram eleitos por maioria de votos directores tenente-coronel João Alves Ferreira da Silva, Américo Teixeira Guimarães e Francisco de Paula Fonseca Vianna, e supplentes Antônio Alves Ferreira da Silva Mello, Antônio Alves Ferreira, José Gonçalves da Costa, José Gonçalves da Silva, Francisco de Assis Fonseca Vianna, Antônio Dias Torres, Francisco Gonçalves Rodrigues Lima e Izidro Barbosa Nogueira.
Comissão fiscal: os sócios Antônio Dias Torres, Antônio Miguel de Cerqueira e Pedro Alves dos Santos Vianna. Também por maioria de votos foi eleito gerente da companhia o sócio Antônio Alves Ferreira da Silva Mello. …”

(²) – “República dos Estados Unidos do Brasil
Registro Civil da cidade de Pedro Leopoldo
Nascimento n.135
Raimundo Gonçalves, Escrivão de Paz e Oficial do Registro Civil da cidade de Pedro Leopoldo, Estado de Minas
Certifico que à fl.12 do livro n.2 de registros de nascimentos foi registrado hoje o assento de Mário da Conceição Vianna nascido aos (8) oito de dezembro de (1892) mil oitocentos e noventa e dois, em domicílio em Pedro Leopoldo, do sexo masculino, de cor —, filho legítimo de Francisco de Paula Fonseca Vianna e de D. Laurinda Carolina Vianna sendo seus avós paternos Cândido da Fonseca Vianna e D. Brígida Vianna.
Foi declarante Mário da Conceição Vianna e serviram de testemunhas Nelson Belisário Vianna e Sócrates Colaro Vianna.
O referido é verdade e dou fé.
Pedro Leopoldo, 27 de outubro de 1938
(ass) Raimundo Gonçalves”

(³) – “Objetos
Revolver S.W. (Smith Wesson) n.172717 – Cão coberto, cabo de madrepérola – adquirido em 1910 Paraná
Espingarda L.Vendrix & Cia – Liege – Belgique n.1420 – peso total 2,415Kg (c/correia); peso do cano 1,166Kg – adquirida no Rio em 2/3/1931.
Relógio Cima 631-4250-1337 chapeado

Escriturário F – Chefe de escritório em 27/8/941 – …
Matrícula na E.F.C.B. n.72326/1938

Título de Eleitor n.5 106ª Zona – 22/2/1933 – Juiz Nestor Ribeiro da Luz

Exceção Militar – Certificado n.2135 de 10/XII/1938 da 7ª Circunscrição – B. Horizonte (a) João de Carvalho – 2º Tenente” [6]

(⁴) – Certidão de Óbito de Francisco de Paula Fonseca Vianna gentilmente cedida por Carlos Aníbal Fernandes de Almeida [1]. A cópia foi obtida em 20 de Janeiro de 2014 no Cartório de Registro Civil de Pedro Leopoldo. Dados relevantes: “Nome: Francisco de Paula Fonseca Vianna; Matrícula 0360380155 1912 4 00001 060 0000024 97; com 57 anos de idade; Data de falecimento: Dezesseis de Setembro de mil novecentos e doze às 2:00 horas; 16/09/2012; Local: Em domicílio em Pedro Leopoldo – MG; Causa da Morte: Congestão Cerebral; Sepultamento: Cemitério de Pedro Leopoldo; Declarante: Alípio Vianna Romanelli; Observações: Era casado com a Sra. Laurinda C. Vianna. Deixou 5 filhos. Quanto à existência de bens para inventário, não conseguimos observar no texto em exame a respectiva anotação.”

(⁵) – “Mario Vianna
falecido a 8 de Novembro de 1942, aos 49 anos de idade em Pedro Leopoldo

O dever antes de tudo; acima de tudo o dever!
(ilegível, parece dizer ser a frase acima o seu lema)
A retidão do seu caráter e a bondade do seu coração o tornavam querido de quantos o conheciam. Estava sempre disposto a servir aos que o procuravam.
…”

Referências

[1] – ALMEIDA, Carlos Aníbal Fernandes de – Notas Genealógicas e documentos do Espaço Cultural Nilde Fernandes
[2] – MOREIRA, Maria Laura – Relatos gravados em arquivos MP3
[3] – PAULA FILHO, Eduardo Vianna de – Sumidoiro’s Blog em sumidoiro.wordpress.com
[4] – VIANNA, Ângela M. B. Bahia – Relatos por e-mail e documentos de família
[5] – VIANNA, João A. M. Bahia – Memórias de conversas com seu pai e seus tios
[6] – VIANNA, Mário da Conceição – Anotações pessoais